Sampaio e Seixas, o primeiro grito de “toca Raul”?

Não, esse não é um texto sobre alguma nova dupla de sertanejos universitários, mas sim sobre dois artistas que se “pós-graduaram” na malandragem de produzir arte nas frestas de uma indústria musical que se desenvolvia à sombra da ditadura. Dois sujeitos que entraram na máquina e inocularam algumas doses de veneno, que ainda deixam efeitos colaterais na circulação desse corpo viciado em lixos tóxicos, chamado indústria cultural brasileira.

O encontro, cooperação e influência mútua entre os dois artistas é também uma das passagens que ajuda a desmistificar a ideia de uma relação obrigatoriamente antagônica entre a MPB e o Rock Brasileiro, duas vertentes que se desenvolveram praticamente simultaneamente e com diversos momentos de diálogo e influência mútua, principalmente nos bastidores dos estúdios das grandes gravadoras.

Tendo chegado no Rio de Janeiro graças ao incentivo do ídolo da Jovem Guarda, Jerry Adriani e da musa da Bossa Nova, Nara Leão, Raul, no final dos anos 60, é contratado como produtor da gravadora CBS. Sua função: produzir (e não raras vezes, compor) grandes sucessos populares para artistas como Odair José, Renato e seus Blue Caps, Trio Ternura, entre outros.

No entanto, ele não podia gravar e produzir seu próprio trabalho, tornando-se um mero burocrata da indústria fonográfica (qualquer semelhança com o desconforto do personagem de “Ouro de Tolo”, não parece mera coincidência). Inquieto, porém, o baiano vai “comer pelas beiradas” experimentando novas possibilidades em trabalhos de artistas produzidos por ele, como o cantor Leno, que saído da Jovem Guarda, buscava rumos mais ousados.

Como conta Rodrigo Moreira – em seu pioneiro livro Eu quero é botar meu bloco na rua – a biografia de Sérgio Sampaio, de 2000 – na atribuição de também identificar novos talentos, Raul conhece o cantor capixaba, natural de Cachoeiro do Itapemirim, e que então, passava altos apertos para se firmar como músico. Percebendo o talento de Sampaio, Raul passa a lhe arrumar trabalhos na gravadora, com a função de compor músicas para os artistas populares contratados da CBS, além de produzir seus primeiros compactos autorais.

Moscas na sopa da indústria fonográfica

Mais do que uma relação profissional, surge uma parceria musical e de amizade, em que, um influenciará o outro: Sampaio, mais ligado à MPB e à tradição do samba irá se aproximar de influências do rock e do psicodelismo; e Raul, bem mais resistente à “linha evolutiva da música popular brasileira”, teria se aproximado um pouco mais das tradições nacionais, o que, talvez tenha facilitado sua incursão por misturas rítmicas em seus trabalhos posteriores.

Sampaio foi também um dos principais incentivadores do trabalho autoral de Seixas, insistindo sempre que ele deveria gravar suas canções, o que permite não descartar a possibilidade de que em alguma conversa etílica de mesa de bar ele possa ter sido pioneiro ao entoar a frase “toca Raul!”, dirigindo-se, no caso, ao próprio.

Especulações e brincadeiras à parte, num primeiro momento, o papel de ambos era o de produzir hits comerciais, sucessos efêmeros de apelo popular. No entanto, o exercício dessa função parece ter servido também de laboratório para as respectivas carreiras e para testar os limites da indústria. Em meio ao processo de “manufatura” de hits de fácil apelo, Raul e Sampaio, ao lado de outros músicos, iam inserindo pitadas de psicodelia, sugestões de temáticas contraculturais e influências do tropicalismo.

“Sol 40 graus”, parceria de Raul e Ian Guest – sob o pseudônimo de Átila

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Raul e Sampaio (assinando como sob o nome de Sérgio Augusto), tiveram várias músicas gravadas pelo pessoal da Jovem Guarda e da Soul Music brasileira, como “Vê se dá um jeito nisso”, em parceria com Raul e Mauro Motta e também gravada pelo Trio Ternura. Em paralelo, o potencial comercial de Sampaio era testado em seus primeiros compactos autorais.

“Vê se dá um jeito nisso” com Trio Ternura, aparceria de Raul, Sérgio “Augusto” Sampaio e Mauro Motta

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Coco Verde – 1971

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Ana Juan – 1971

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OS KAVERNISTAS ESTÃO CHEGANDO

Essa ampliação de limites não demoraria muito a resultar numa performance bem mais radical: a criação de um álbum coletivo anárquico e anticonvencional, gravado e lançado, segundo alguns, sem o conhecimento da gravadora. Recrutando duas figuras igualmente excentricas, a sambista Miriam Batucada, e o artista performático e, homosexual assumido, Edy Star, criam o tresloucado LP “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10”.

            Lançado em agosto de 1971, o álbum se apropriava de forma paródica de diversas referências da música popular brasileira tradicional, misturadas ao rock e com letras que apontavam para referências contraculturais, para a desilusão com o processo de urbanização e com a vida na metrópole, jogava com a apropriação crítica dos signos da indústria cultural e do consumo, assim como com a crítica à acomodação e aos valores da classe média. O álbum era ainda pontuado por comentários nonsense, efeitos psicodélicos, colagens caóticas, e vinhetas.

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão Das 10 – 1971

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O desejo de mudança está implícito tanto nos versos quanto na anarquia iconoclasta e no uso irônico dos clichês de toda uma gama de gêneros populares. Revela um olhar ácido sobre a cultura musical brasileira a partir do centro da engrenagem da grande indústria e um olhar sobre o processo de urbanização brasileiro a partir da sensibilidade do artista migrante, sempre um pouco “estrangeiro” a esse universo e propenso a quebrar com o senso comum e desnaturalizar o cotidiano. O ato insubordinado e anticomercial de Raul teve como penalidades, a ordem para que o disco fosse recolhido das lojas e a proibição de novas gravações do trabalho pessoal de Seixas.

Sampaio gravaria mais um compacto pela CBS em 1972, ainda sob a direção artística de Raul, registrando o artista já com sua linguagem pessoal bastante definida: Uma equilibrada mistura de referencias da tradição da música popular brasileira, do tropicalismo, e do rock psicodélico, aliadas a uma poética jovem e irônica, que joga de forma bem-humorada com o universo do consumo e da comunicação de massa. Esse é o tom de “Classificados nº 1”:

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Já em “Não Adianta”, a personalidade característica do intérprete e do cancionista Sérgio Sampaio, surge plenamente definida com seu tom pessoal, confessional, melancólico e irônico. Também bem resolvido, está o encontro entre sua poética e sua personalidade melódica, com a utilização de uma linguagem roqueira no instrumental. Outra característica que aparece aqui e que se fará presente em outros momentos de sua obra é a prática assumida da intertextualidade com a tradição recente da MPB, no caso (com “A Banda” de Chico Buarque) e com outras fontes culturais (vide a poesia de Drummond):

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Assumidamente inspirada em Raul, num esforço de se colocar no lugar dele, a canção refletia também o desencanto do início dos anos 70. Encarna o espírito do “fim do sonho” que marcaria a poética contracultural “noturna” presente na MPB do período e identificada por Paulo Henriques Brito, no livro Eu quero é botar meu bloco na rua, em que analisa o primeiro disco solo de Sampaio. Proibido de cantar, Raul compõe o desabafo “Let me sing, let me sing my rock’n’roll”, uma bem resolvida mistura de duas de suas principais influências, o rock’n’roll de Elvis e o baião de Luiz Gonzaga.

Virando o jogo para ambos, Sampaio se inscreve (com “Eu quero botar o meu bloco na rua” que seria seu maior sucesso) e inscreve Raul (que tem duas músicas classificadas, uma delas, “Let Me Sing”, defendida pelo próprio Raul) no IV Festival Internacional da Canção de 1972. Classificados e com uma boa receptividade, se encerraria ali a relação de ambos com a CBS, sendo contratados pela Philips para lançar seus primeiros LPs. No lugar de uma derrota, os dois artistas saiam desse embate com a indústria fonográfica, “pós-graduados” e prontos, cada qual em sua linha, para produzir dois brilhantes álbuns solo de estréia.

A experiência de Rauzito como produtor, parece ter fornecido um know how sobre como manipular elementos musicais que falavam direto à sensibilidade popular e ao mesmo tempo expressar sua crítica social e os ideais da contracultura, além de misturar, com naturalidade, influências musicais brasileiras.

Raul Seixas – Krig ha, bandolo! 1973

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Sampaio, por sua vez, incorporou em sua poética temáticas críticas de teor contracultural, e adicionou à sua linguagem musical, elementos do rock psicodélico. Apoiado na identidade pessoal de sua lírica para demarcar seu estilo, com versos precisos, claros e contundentes, e uma interpretação vocal que mescla melancolia e ironia, perfeitamente adequada à expressão de sua poética, Sérgio traçou um diálogo franco com tradições, antigas e recentes da música popular brasileira e com cosmopolitismo do rock e da música pop contemporânea.

Sérgio Sampaio (1973) – Eu quero é botar meu bloco na Rua

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De estética mais sutil e introspectiva, e com dificuldades pessoais de adaptação às pressões do estrelato, Sampaio, no entanto, não obteve a mesma repercussão que Raul, apesar da coerência e qualidade de sua obra terem transformado o artista em um mito cult, principalmente após sua morte.

Estradas que partem de origens distintas, geográficas e musicais para casualmente se encontrar e intencionalmente “tocarem o horror” no cenário bem-comportado dos fabricantes de sucessos em série, Sampaio e Seixas, dois artistas autênticos, intensos e que de tão inquietos, não aguentaram ficar muito tempo nesse planeta. E que falta fazem no cenário atual repleto de duplas duplicando mais do mesmo (ou seria mais do menos?).

Fontes:

BRITTO, Paulo Henriques. Eu quero é botar meu bloco na rua de Sérgio Sampaio. Coleção Língua Cantada. Rio de Janeiro. Editora Língua Geral. 2009.

MOREIRA, Rodrigo. Eu quero é botar meu bloco na rua – a biografia de Sérgio Sampaio. Ed. Labouré Lima, 2000.

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0 thoughts on “Sampaio e Seixas, o primeiro grito de “toca Raul”?

  1. Texto brilhante e inteligente que faz um resgate histórico de dois artistas geniais da nossa MPB.
    Muito show Edinho.
    Parabéns camarada!………

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