Martiataka

Release do CD “Coração & Tripas”, por Dudu Monsanto

Um surto de country gótico – “Coração & Tripas”, do Martiataka: um gol de ousadia sonora

A tentadora ideia de gravar um disco acústico já fez vários gigantes do rock patinarem no lugar comum. E conhecendo o Martiataka há 13 anos, desde o primeiro e longínquo show da banda, confesso que não conseguia imaginar o rock ‘n’ roll combustível dos bandoleiros de Marte sendo encaixotado na estética unplugged. Como seria ouvir a banda sem as Les Pauls distorcidas? Seria possível sossegar o facho do frontman W. Del Guiducci e colocá-lo de castigo num banquinho?

Companheiros, a improvável missão foi cumprida com louvor, sem compromissos comerciais e medo zero de experimentar. E mais do que isso: a sonoridade batida dos álbuns acústicos que se multiplicaram nos anos 90 passa longe. “Coração & Tripas” é contemporâneo, sem abrir mão do som de raiz, do folk, do blues, e flerta vadiamente com o country. O som que nasceu dessa fusão, delicioso de se ouvir, foi batizado durante as sessões de gravação como country gótico. O nome era só uma brincadeira do produtor Nando Costa, mas é perfeito para definir o estilo do álbum, que foge a qualquer rótulo tradicional.

“Coração & Tripas” também poderia se chamar “Chegadas & Partidas”. O disco é o último trabalho do guitarrista Fabrício Barreto com o Martiataka. Um dos fundadores da banda, Barreto pegou seus riffs e sua gaita e fez como Luiza: foi para o Canadá, não sem antes mostrar sua capacidade ao reproduzir no violão a mesma personalidade marcante de sua guitarra . Passaram pela aduana de Marte e chegaram à banda o guitarrista JP Ferreira (figuraça que parece ter sido abduzida e trazida dos anos 80 para hoje sem escalas) e Ruy Alhadas, tecladista que sofisticou o som do grupo sem tirar seu drive e permitiu inúmeras possibilidades na hora de recriar as antigas canções da banda no formato acústico.

Das 43 faixas gravadas ao longo da carreira, o Martiataka escolheu 12 para o novo disco. E quem já conhece essas canções vai tomar um gostoso susto. Mais do que releituras, o Martiataka propõe novas encarnações para suas músicas. Trumpetes, trombones e saxofones (que já tinham dado as caras no excelente disco anterior, “Marginal”) passeiam pelo álbum em harmonia com a consistente e vigorosa cozinha formada pelo baixista Thiago “Jim” Salomão e o baterista Victor “Frango” Fonseca. Além dos metais, cordas também pontuam as novas versões. “Mundo Bar”, a mais cantada pelo público nos shows do Martiataka, ganhou ares de saloon com o violino brejeiro de Vinícius Faza. A cara nova de “Eu quero ser melhor” é de rock sinfônico, com cordas, piano e baixo muito presente. A atmosfera é próxima à de “November rain”, do Guns N’ Roses, e cativa logo na primeira audição.

Exilados em São João Nepomuceno para gravar “Coração & Tripas”, os meninos do Martiataka trazem em seu novo álbum um momento que lembra o isolamento dos Stones na Cote D´Azur e o brilhante “Exile on Main Street” (1972). “Quer saber” tem o groove de Mick e Keith, percussões que não deixam ninguém parado e o açúcar mascavo das backing vocals Renata Brandão e Lívia Kodato. As duas também estão presentes em “Noturna”, canção onde a performance de Ruy Alhadas traz à mente o teclado de John Paul Jones em “No quarter”, do Led Zeppelin. “Sem juízo” é uma festa com alma de Brian Setzer e Stray Cats: gaita furiosa, metais sem amarras e música em movimento. “Armadilha”, “Vertigem”, “Pedra de gelo”, “Música nova”, “Diabo de mulher”, “Não me importa” e “Eu não menti” completam a lista de canções renascidas sob a produção competentíssima de Nando Costa.

E para mostrar que a ideia de gravar um disco acústico não foi preguiça de compor, os meninos de Marte entregam duas inéditas em “Coração & Tripas”. O primeiro single é “Armadilha”, parceria de W. Del Guiducci e Fabrício Barreto que já virou clipe dirigido por Bruno Santinho. Sinalizando os novos rumos e possibilidades do Martiataka com Ruy Alhadas nos teclados, “Armadilha” traz como licença poética a guitarra de Fabrício Barreto infiltrada no disco acústico. Um dos mais talentosos letristas de sua geração, W. Del Guiducci prova em “Armadilha” que está cantando cada vez melhor. É ele o único sobrevivente de todas as metamorfoses e diferentes formações do Martiataka. A outra composição nova é “Cão”, de Ruy Alhadas, Fabrício Barreto e W. Del Guiducci. Mais uma música colorida por metais em brasa, piano swingado e interpretação inspirada de Del Guiducci.

O único pecado de “Coração & Tripas” está no subtítulo. Como assim “Pequeno monumento acústico ao country gótico”? Estas 14 músicas (que podem ser mais, fique atento no fim do álbum…) são a gênese de um novo estilo musical, senhoras e senhores. Não fosse a modéstia uma virtude dos mineiros, o subtítulo poderia ser: “A pedra fundamental do country gótico”; “Aqui nasce o country gótico”, ou outro arroubo megalômano

qualquer. Mas o que importa é que, bem mineiramente, Del, Fabrício, Jim, Frango, JP e Ruy fizeram de “Coração & Tripas” o melhor disco do Martiataka e um dos melhores álbuns de 2014. Ouça uma vez, e você vai querer ouvir de novo, e de novo… e na terceira audição você já será devoto de Nossa Senhora do Country Gótico. Em nome do coração, das tripas e do country gótico: amém!

* Dudu Monsanto é jornalista, escritor, apresentador e narrador esportivo da ESPN Brasil

 

Ouça na íntegra o álbum “Coração & Tripas”

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Vídeos:

 

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Histórico

          Tudo começou como deveria ser com toda boa banda de rock: no bar. Das mesas cheias de garrafas vazias, eles foram para o estúdio e, do estúdio, para os palcos e, dos palcos, para a boca do povo. Nascia o MARTIATAKA. E crescia. O quinteto estreou em abril de 2001. Depois de ganhar manha nos palcos das festas universitárias e bares de Juiz de Fora, naquele mesmo ano, lançou seu primeiro CD demo. Aí veio o segundo, e depois o disco de estreia, mais um EP, outras cidades, outros festivais, outros integrantes, participações em coletâneas, mais um disco e outro EP e outro disco e um merecido lugar de destaque entre as mais atuantes bandas de rock do cenário independente de Minas Gerais.

             Desde as primeiras demos, cujas músicas foram rearranjadas para o álbum de estreia, “Rockæ Roll Combustível”, de 2005, produzido por Zé Felipe (baixista do lendário grupo carioca Zumbi do Mato), a vocação do MARTIATAKA estava clara: rock tradicional, despudorado, turbinado por riffs incandescentes e refrões poderosos, bêbado de referências engarrafadas nos anos 60, 70 e 80, safras que foram despejadas em um único barril, fermentando ali a agressividade do punk e o feeling do blues, o hard rock setentista, o heavy metal de primeira hora e o BRock oitentão, sempre reverenciando, jamais copiando.

             Com o primeiro disco oficial, abriu-se também a cancela para a estrada. A banda colocou o clipe do single “Asas” na MTV, ganhou destaque com sua música em sites importantes do meio independente, como Dynamite e Senhor F, e rompeu os mares de morros de Juiz de Fora para também incinerar palcos do Rio e de São Paulo e de Belo Horizonte e de Curitiba e por aí foi. Entre tantos outros, dividiu noites com Autoramas, Lobão, Cachorro Grande, Wander Wildner e Marcelo Nova – que acabou levando o baixista Jim Salomão para fazer com ele alguns shows -, participou de festivais e, enquanto isso, não parava de produzir novas músicas.

            Com o EP “Trindade”, de 2006, produzido por Jimmy London (vocalista do quarteto carioca Matanza), o MARTIATAKA consolidou sua identidade, confirmada com o CD “À moda do caos”, lançado em 2009, um álbum composto por dez explosivas canções sobre amor, ódio, sexo e perdição. Em 2010, sem dar tempo para que a poeira pouse sobre os ossos e o espírito se acomode, a banda colocou nas ruas e nos palcos mais três canções inéditas a bordo do EP “Karma, baby!”. Em 2012 veio o quinto lançamento, “Marginal”, um álbum cujo nome de batismo reafirma a posição de uma banda que, mesmo correndo à margem da grande mídia, sobre os escombros do lixo cultural, mantém há mais de uma década uma carreira consistente e permanentemente faminta de estrada e rock and roll.

               Em 2014, a banda se lançou ao maior desafio de sua carreira: revisitar sua própria obra em um formato acústico. O novo álbum do MARTIATAKA, “Coração & Tripas: pequeno monumento acústico ao country gótico”, foi gravado em cinco dias no Estúdio Versão Acústica, de Emmerson Nogueira, com produção de Nando Costa. O repertório é formado por 14 canções: 12 são releituras que cobrem todas as fases da carreira do grupo, e duas, “Cão” e “Armadilha”, para não perder o hábito, são inéditas e confirmam o constante estado de ebulição e criatividade do MARTIATAKA.

Martiataka:

Del Guiducci – voz / Bruce Ramos – guitarra / JP Ferreira – guitarra / Thiago Salomão – baixo / Ruy Alhadas – teclados / Victor “Frango” Fonseca – bateria

Alguns shows:

Circo Voador – Rio de Janeiro, 2010 /Teatro Odisseia – Rio de Janeiro, 2011 /Clube Outs – São Paulo, 2006 / Funhouse – São Paulo, 2007 / Manifesto – São Paulo, 2007 / Inferno Club – São Paulo, 2009 / Melt – Rio de Janeiro, 2007 / Garage – Rio de Janeiro, 2005 / Saloon 79 – Rio de Janeiro, 2009 / Porão Rock Club – Curitiba, 2007 / Retrô – Curitiba, 2007 / Matriz – Belo Horizonte, 2008 / São Jorge Bar Divertido – São João Del Rey, 2005 / Caem – Ouro Preto, 2008 / Flor & Cultura – Viçosa / Cultural Bar – Juiz de Fora / Café Muzik – Juiz de Fora

Contatos:

FacebookSoundcloud /  Site oficial

Telefones: 32 3025-4405/8848-1582 (Wendell)

E-mail: wdelguiducci@gmail.com

 

 

 

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