O resgate do soldado Zé pela cena punk do CBGB

Brasil dos idos dos anos 70: um sujeito nascido na cidade de Irará, Bahia, e conhecido por uma alcunha que misturava um nome gringo, com o mais brasileiro dos diminutivos, Tom Zé, ia seguindo sua trilha esquisita e acidentada como um misto de personagem de tragédia grega e anti-herói macunaímico.

Depois de ter tomado gosto por música “esquisita” estudando com professores europeus de vanguarda em Salvador, tinha ido parar no olho do furacão do movimento Tropicalista no final dos anos 60.  Tornou-se uma de suas vozes mais inovadoras e radicais, jogando ironia no ventilador, ao brincar com a metrópole e a indústria cultural, dentro das quais, era um estrangeiro, de olhar atento às hipocrisias nossas de cada dia.

Como um Prometeu atrevido tentando atear fogo ao marasmo da indústria musical e da moral e dos bons costumes, teria que pagar um preço alto por sua autenticidade: cair num semi-ostracismo a partir dos anos 70, ao ser colocado pelo grande mercado da música popular brasileira no limbo dos chamados “malditos” – artistas considerados difíceis ou rebeldes demais para o gosto médio.

 

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Enquanto isso, também no início dos anos 70, um jovem escocês que mudara aos 7 anos para os EUA, dava os primeiros passos na música, ora com seu violão, hora com um ukulelê, ou um violino de segunda mão e acompanhado por um amigo que tocava acordeom. Um começo natural foi tocar folk em cafés universitários e até mesmo  na rua, como uma dupla de músicos mambembes.

David Byrne na escócia. Arquivo Pessoal. Fonte: Revista Trip.
David Byrne na escócia. Arquivo Pessoal. Fonte: Revista Trip.

O moleque escocês, que gostava de bicicletas desde a infância, não imaginava que um dia seria um ativista em prol do aumento do uso desse veículo como meio de transporte… “- Bom mas o que eu tenho a ver com isso”, perguntaria um inquieto Tom Zé, se soubesse da existência desse escocês nessa época.

É que, ao longo dos anos 70, experimentar com a música já era o principal gosto de Tom Zé, que não dava o braço a torcer e que, brincando à sério, fazia seus discos entortarem as tradições brasileiras, fossem elas musicais, ou não. Se o Tropicalismo introduziu, com escândalo, a guitarra elétrica na MPB, os arranjos de Tom Zé poderiam ter de liquidificadores, a serra elétrica, rádios de pilha, máquina de escrever, em estruturas musicais a um só tempo anti-convencionais, porém, em diálogo com as tradições populares brasileiras.

Mas bancar esse jogo não era fácil e Tom Zé, num dado momento de sua trajetória, para se manter, teria que trabalhar num posto de gasolina da família em Irará. Isso não ajudaria muito a que ele se encontrasse com o moleque escocês, pois hoje, apesar de bem sucedido, o moleque não tem carro e prefere as bicicletas. Se tivesse ido cuidar do posto de gasolina em Irará, a essa altura, Zé já deveria estar, é à ponto de mandar muita gente  socar e meter “sua moral, regras  e regulamentos, escritórios e gravatas…  no tanque de gasolina”, como propôs em uma de suas músicas.

Olhando em perspectiva, o moleque escocês que mudou para os Estados Unidos, considera que na verdade sempre teve uma variação mais branda da síndrome Asperger, mas isso não impediu o moleque de deixar de tocar na rua e se juntar com amigos para formar bandas. Como em geral, bandas são feitas para serem desfeitas, de uma dessas, sobraram só ele e um outro amigo, chamado Chris.

O duo não tinha baixista, alias parecia que Nova York não tinha baixistas, ou pelo menos para o projeto dos dois, mas Chris tinha uma namorada, Tina, que por coincidência, não tocava baixo. Mas, como essa não é uma história muito lógica, nada mais natural que ela se tornasse a baixista. E Tina foi aprendendo a tocar baixo, e assim foi formado o embrião do Talking Heads, por onde ainda passariam vários outros músicos.

Enquanto isso, Tom Zé, no Brasil estudava o samba, desaprendendo a fazer o certo (como era do seu feitio) e lançou um disco com esse mote. E é lógico, pouca gente entendeu, e o disco ficou por aí, tipo garrafa de naufrago, dessas com mensagem dentro, esperando alguém abrir.

 

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Pra muita gente, nessa época, Tom Zé era um doido. Isso porque, estamos ainda nos anos 70 e ainda não apareceu no seu caminho aquele moleque escocês, que gostava de andar de bicicleta e que achava que tinha uma forma branda de síndrome de asperger. O certo é que, apesar disso, o escocês, junto com seus amigos, conseguiu ir firmando sua banda e lá pela segunda metade da década acabou indo tocar num lugar de ar decadente em New York, cheio de bandas formadas por músicos de aparência estranha, em geral, problemáticos e de comportamentos questionáveis e que faziam sons tidos como barulhentos e toscos para ouvidos mais bem comportados e educados.

Tom Zé na segunda metade dos anos 70, provavelmente não sabia o que era o clube CBGB e, os anos 70, por sua vez,  praticamente não sabiam mais o que era o Tom Zé no país do futebol, do carnaval, da tortura, da censura, e do padrão Globo de bom gosto mostrando como era fantástico o show da vida. Tom Zé era muito louco para esse Brasil, que tratava com choque elétrico tanto os loucos quanto os subversivos, tudo isso com o patrocínio dos EUA, aqueles mesmos, de onde vinham brotando, no barulho da noite, os punks do CBGB .

Tom Zé não conhecia ainda, o hoje bem sucedido escocês, que não tem um carro, porque gosta da liberdade e da alegria que se locomover de bicicleta lhe propicia e que gostaria que mais gente pudesse experimentar. O moleque escocês que acha que tinha uma forma branda de síndrome de Asperger, anos depois, teria uma coluna regular sobre ciclismo no New York Times e escreveria um livro sobre o tema, além  de ser um defensor de formas mais sustentáveis de vida.

 

Problemáticos e esquisitos dominam o mundo

 

Mas o fato é que, desafiando qualquer lógica vigente, os caras e garotas problemáticos e esquisitos que tocavam no CBGB, estavam se tornando o embrião de uma virada na música pop, isso, em grande parte, exatamente por serem esquisitos e problemáticos e por fazerem sons que não seguiam os padrões vigentes do mercado e do bom gosto.

Talvez exatamente por toda essa esquisitice, estavam ajudando a desencadear em termos de música e comportamento, algo que faria todo o sentido para jovens (ou não tão jovens) esquisitos e problemáticos de todo o mundo, já que o mundo se tornava silenciosamente, ou aos berros, cada vez mais esquisito e problemático.

 

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O mundo dito normal ia ficando cada vez mais doente e a molecada esperta sabia disso. Tom Zé já não era moleque há muito tempo, mas também sabia disso. A molecada é chamada de Punk. Tom Zé poderia ser o punk dos punks, mas naquele final de década de 70, ele não sabia onde ficava o CBGB e talvez nem soubesse que isso existia e que na segunda metade dos anos 70, um moleque escocês que gostava de bicicletas – e que talvez tivesse uma forma branda de síndrome de Asperger – tocava lá com seus amigos.

O certo é que o escocês e seus amigos assim como Tom Zé, vão buscando formas esquisitas de fazer sua música. A molecada de lá, já sentia, assim como Tom Zé, que a sociedade tem defeito de fábrica e bandas de caras e garotas, vão conquistando espaço como uma contracorrente ao conformismo do American Way of Dead.

O escocês que, com seus amigos atende então pelo nome de Talking Heads, de repente se torna um “dos caras”, e sua música esquisita se torna referência internacional, exatamente por ser fora do padrão e soar como algo novo no cenário pop. Com o tempo, outras levas de jovens vão se apropriar do termo punk, e o Talking Heads, já não vai caber mais nas perspectivas do que agora não é só música, mas um movimento. Para alguns, eles passam a ser pré ou proto-punks, para outros new wave… mas isso pouco importa.

 

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Encontrando a mensagem na garrafa e resgatando o náufrago

 

No início dos 80, Tom Zé e outros do time dos malditos, definitivamente não cabiam no país da abertura. A música no “Brêzil” de então, tem que ter um padrão internacional, limpinha, bonitinha, embaladinha pra tocar nas efe(ê)me(ra)s, na novela e no Globo de Ouro. A ditadura explicita ensaia uma saída de cena, mas deixa no lugar a ditadura do mercado e da eficiência do marketing, demonstrando uma capacidade coercitiva, dentro da indústria musical, mais castradora que a da censura oficial.

Do outro lado do Atlântico, em meados dos anos 80, o escocês já anda cansado do “padrão internacional”, e quer ver o que tem de diferente do outro lado do muro. Ouve, vê, viaja… Numa viagem, vem parar no Brasil. Seguindo a lógica: Brasil= Samba, compra um monte de discos de samba. No meio… por acidente,  vai um espécime no mínimo  esquizito…. O disco de um cara aprendendo a desaprender o certo do fazer do samba.

Espantado, David Byrne, consulta amigos brasileiros. Descobre que “Estudando o Samba” é de um tal de Tom Zé, que participou de uma revolução musical brasileira nos anos 60. O escocês deve ter se espantado mais ainda, ao saber que o Brêzil, não sabia de Tom Zé. Não muitos anos antes, Elis Regina cantava “O Brasil não conhece o Brasil” e Chico dizia “Bye Bye Brazil”, enquanto Raul achava que a solução era alugar o dito cujo para os gringos.

 

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O escocês que tocava na rua e anda de bicicleta, lança discos do baiano e mostra Tom Zé para o mundo. O mundo acha Tom Zé genial. O “Brêzil”, subitamente começa a ver algum sentido em Tom Zé. Tom Zé já não vai trabalhar no posto de gasolina da família. Agora é combustível pra novas gerações para um mundo que precisa andar menos de carro e mais de bicicleta.

O brasileiro “normal” continua a achar Tom Zé e várias outras coisas, estranhas e malucas. Provavelmente acha David Byrne também esquisito e maluco. Mas, por via das dúvidas, como bons brasileiros, não vão questionar demais um escocês-americano que acha que tinha uma forma branda de síndrome de Asperger, mas que se tornou famoso como músico e passou a escrever no New York Times (ainda que ele não tenha carro e ache que as pessoas devam andar de bicicleta e buscar forma mais sustentáveis de vida).

Tom Zé continua aprontando “das suas”, de forma genial, irreverente e inusitada, assim como continua torcendo pelo Coríntias. Por sua vez,  David Byrne continua a andar de bicicleta, escrever, criar e pensar sobre música e sobre o mundo. Ambos devem continuar a lamentar que tanta gente ainda desconheça a liberdade e alegria de trocar o carro por uma bicicleta e, principalmente, de soltar suas loucuras contra um mundo que segue preconceituoso e doente, mergulhado na patologia nossa da pretensa normalidade de cada dia.

 

Foto: G.R. Christmas, Courtesy Pacewildenstein, 2008
Foto: G.R. Christmas, Courtesy Pacewildenstein, 2008

 

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