“Mudança de Comportamento”: 30 anos de IRA!

 

Nesse mês de maio o Lp “Mudança de Comportamento”, do IRA! completa 30 anos de seu lançamento, encontrando o grupo (hoje com apenas Nasi e Edgar Scandurra, da formação clássica) em plena atividade. A banda vem percorrendo várias cidades do Brasil, com a tour “Núcleo Base” (título de uma das faixas de maior execução do álbum), ao mesmo tempo em que Nasi trabalha seu novo CD solo, e Scandurra prossegue envolvido com vários projetos. A tour é resultado de um dos reencontros mais esperados do rock brasileiro, ocorrido no ano passado, entre os dois líderes atuais do grupo, depois de sete anos de rompimento em decorrência de questões pessoais. Por feliz coincidência a reconciliação permitiu que a comemoração do aniversário acontecesse da melhor maneira possível, na estrada.

 

Explosão do Rock Brasil 80

 

O ano de 1985 pode ser considerado em grande parte o ano em que apontou para a inevitável consolidação do fenômeno cultural e mercadológico do rock brasileiro dos anos 80. Resultado de uma série de fatores, que não caberia aqui listar, mas que inclui o amadurecimento de toda uma movimentação underground, o fenômeno nacional das danceterias, a consolidação de espaços alternativos como o Circo Voador no Rio de Janeiro, assim como de canais alternativos como a Rádio Fluminense FM “Maldita” (Niterói) e mesmo o bombardeio de marketing do primeiro Rock in Rio.

Mas nada disso teria tanto efeito sem a chegada ao mainstream de toda uma leva de bandas com capacidade de fazer a ponte entre o cenário underground de matriz pós-punk e new wave, e o grande público, unindo consistência e capacidade de comunicação. Nessa lista estão a Legião Urbana (quase uma enciclopédia de referências pós-punk), a irreverência com causa do “Nós vamos invadir sua praia” , do Ultrage à Rigor, o punk lapidado do Ep “O concreto já rachou”, da Plebe Rude, o sucesso meteórico do tecno-pop de raízes progressivas, do RPM, o primeiro solo de Cazuza, “Exagerado”, além do pipocar de novas bandas por todo o território nacional.

 

Longe de Tudo

 

Nesse contexto, “Mudança de Comportamento”, surgia no cenário com uma linguagem musical e de produção (de Pena Schmidt) bastante diferenciada. No lugar do esforço de mimetizar as últimas tendências do pop mundial, o grupo fincou raízes firmes em referências setentistas da cena punk e new wave inglesa, particularmente da corrente neo-mod, encabeçada pelo cultuado The Jam, assim como nas fontes originais sessentistas do movimento, de bandas como The Who e The Kinks. A produção, por sua vez preservou em grande parte a sonoridade orgânica que Edgar Scandurra (Guitarra), Ricardo Gaspa (baixo), André Jung (bateria) e Nasi (vocal), produziam ao vivo, evitando o artificialismo e a padronização presente em muitos dos discos lançados no período.

Embora seu segundo álbum “Vivendo e não aprendendo” seja sempre citado como o seu grande clássico – tendo revelado o grupo para o grande público, com faixa em abertura de novela (“Flores em Você”) e contendo alguns de seus principais hits – “Mudança de Comportamento” continua sendo o álbum mais coeso e contundente, com sua linguagem musical urgente e poderosa e sua poética juvenil simples e direta.

Gravado em apenas 9 dias, o álbum registra a essência musical da banda em toda sua consistência sem excessos e maquiagens de produção e sem atenuantes para o enquadramento nos padrões das FMs. Já nos primeiros fraseados de “Longe de Tudo”, a sensação é de estar diante de uma verdadeira banda de rock e não de mais projeto formatado pelo departamento de marketing de da gravadora. A letra fragmentária expressa uma angustia existencial juvenil que não pode ser elaborada em discurso, mas sim em acordes, golpes de batera e baixo e versos estilhaçados.

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Pegando um pouco mais leve no som, “Núcleo Base”, não faz concessões, mas foi a chave certa para a entrada do grupo nas FMs, com sua letra que pregava um antimilitarismo adolescente fundido a uma temática erótico sentimental. A autenticidade da abordagem fica por conta do fato de que Scandurra realmente a compôs como um desabafo quando teve de prestar o serviço militar obrigatório, experiência compartilhada por boa parte do público masculino da banda, daí talvez um dos motivos da forte empatia com o público.

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O romantismo que seria uma das marcas da banda se torna mais evidente na faixa título, porém mantendo a pressão sonora num belo arranjo que não esconde a influência dos melhores momentos do The Jam. Detalhes de percussão e uma econômica intervenção de sopro, aliados aos belos arranjos vocais, garantem o lirismo da canção. E é a frustação amorosa e o platonismo, que dão novamente o tom da sutil “Tolices”, conduzida por uma bem sacada junção de violões, baixo e bateria.

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E a intenção do grupo de criar verdadeiros hinos aos anseios e frustrações juvenis fica mais que escancarada em “Coração”, com sua letra explícita e sua batida urgente que remete à origem punk do grupo, sem abrir mão da qualidade musical.

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O inconformismo volta com força total já na abertura do Lado B, com “Saída”, que, ainda que sem perder o viés subjetivo e sentimental, dá um recado político mais direto: “e os homens que se julgam espertos/ vão ficar muito engraçados/atrás de suas mesas…”. A batida marcial da bateria bem groovada com o baixo e um arranjo bem elaborado de guitarras sobrepostas utilizando-se com precisão de wah wah, feedbacks e outros recursos, embalam um discurso pacifista nada óbvio.

Uma abordagem política mais punk retorna em “Notícias”, apontando para a alienação e a manipulação dos políticos e dos meios de comunicação, mantendo, no entanto a leveza melódica e a musicalidade, que deram à banda seu toque peculiar dentro do cenário pós-punk brasileiro.

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“Como os ponteiros de um relógio”, mostra o Ira! em um dos melhores arranjos do período, mostrando toda a criatividade e entrosamento da banda, o vocal de Nazi encontra um de seus melhores momentos expressando muito bem a angústia jovem. E a aridez do dia a dia e do noite a noite do jovem brasileiro sem perspectivas, em plena crise econômica,  é retratada como em poucos momentos do rock brasileiro em “Sonhar com quê”, tão eficiente quanto um punk rock, mas com lirismo e sutilezas musicais. E disco fecha, com mais um autêntico manifesto da inadequação existencial juvenil em “Ninguém Entende um Mod”.

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Se o álbum não teve a mesma repercussão midiática de seu sucessor, é sem dúvida um dos tesouros mais bem guardados do rock brasileiro, tendo sobrevivido muito melhor ao tempo do que boa parte de seus contemporâneos. Talvez “Mudança de Comportamento” seja um Lp mais atemporal, pelo fato de ter estabelecido conexões não só com o cenário em que foi produzido, se permitindo dialogar com referências também dos anos 60 e 70. Além disso, foi um dos poucos álbuns brasileiros que conseguiu uma sonoridade realmente próxima à do rico cenário do punk e da new wave inglesas do final dos anos 70, que, no Brasil não chegou a atingir um público mais amplo em seu momento de efervescência.

Soma-se a tudo isso, a universalidade do discurso direto, porém sem apelações, com que o grupo expressou as insatisfações da juventude, alcançando uma universalidade quase atemporal. Forte candidato ao posto de uma das obras primas do rock Brasil 80. Por essas e outras, Nasi, Scandurra e seus fãs, têm muito o que comemorar durante a bateria de shows que aguarda a banda ao longo desse ano.  Pra quem não tem o original de 1985, vale lembrar que o disco ganhou uma nova prensagem em vinil pela Polysom.

 

Para conferir o álbum na íntegra, acesse o site Mundo IRA!

 

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