Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e as reinvenções de uma banda pop

 
 
 

Quando o pessoal do Show Musica fez a provocação para que eu escrevesse um comentário para marcar a semana do aniversário do lançamento do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1 de junho de 1967) me veio de imediato o impulso de pular fora. O que escrever sobre um álbum que na visão de um crítico do The Times (e de uma infinidade de outras pessoas), “foi um momento decisivo na história da civilização ocidental”?
De que forma acrescentar algo relevante sobre um disco que influenciou meio mundo? Qual o sentido de rebater na tecla de que essa peça conceitual criada por, Harrison, Lennon, McCartney, Martin e Star, foi referencial fundamental para o progressivo e vários outros momentos de experimentação do rock. O que acrescentar ao fato de que, no Brasil, o álbum instigou o surgimento do Tropicalismo e do disco coletivo “Tropicália”?
Para quê lembrar de novo que esse álbum foi uma das referências fundamentais para que o Clube da Esquina criasse seu amálgama de regionalismo e universalidade, contemporaneidade e tradições das mais diversas? Poderia citar ainda a esculhambação consciente dos Kavernistas Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Miriam Batucada, mas… E daí? O que isso tudo pode acrescentar?
Poderia passar horas nessa listagem, pois o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band ajudou a ampliar quase ao infinito o que compreendemos como música pop em toda sua gama de experiências posteriores, expansões e recuos. E se há algo que me parece no momento interessante destacar, não só sobre esse álbum, mas sobre toda a rica fase de expansão de possibilidades vivida pelos Beatles no período que antecedeu à sua gravação, é quanto à fantástica capacidade que eles tiveram de dialogar com seu tempo.

 

Mudando com seu tempo
 
Como é fascinante que um grupo que já tinha chegado ao topo do pop mundial, ao invés de se acomodar em colher os frutos do sucesso já conquistado, tenha optado por embarcar na aventura de uma geração que estava virando o ocidente ao avesso. E como chega a parecer mágico, que com isso, tenha conseguido exercer um papel fundamental de catalisador desse processo de experimentação e transformação coletiva.
É como se Elvis tivesse fugido do exército, chutado seu empresário, Coronel Parker, rasgado os roteiros dos filmes que fez pra Hollywood e optado por fazer um tour por shows de novos artistas e novas bandas, pelas comunidades hippies, pelas passeatas pela paz e pelos direitos civis, por performances artísticas de vanguarda, experimentado substâncias novas, buscado o Nirvana em algum ashram da Índia e transformado o somatório disso tudo, em música altamente inovadora. Digo isso, com todo respeito a Presley, reconhecendo os diferentes contextos e o fato de que ele era um artista isolado enquanto os Beatles eram um coletivo criando em consonância com o espírito coletivo de um tempo revolucionário.

 

Os Beatles mergulharam nas trips de sua geração, da contestação de valores às buscas espirituais.
Os Beatles mergulharam nas trips de sua geração, da contestação de valores, às buscas espirituais.

 

A sensação é de que os Beatles foram tão relevantes não tanto pelo o que foram capazes de influenciar, mas sim pelo quanto se permitiram deixar influenciar pela efervescência de seu tempo e pelo quanto se permitiram viver de seu tempo. A densidade musical, poética e conceitual do disco tem como background, toda essa série de diálogos com seu tempo.
Uma banda mundialmente consagrada, que admite a influência de seus contemporâneos, da poética de Dylan, passando pelo pop elaborado dos Beach Boys, e toda a gama de experiências da rica cena psicodélica do período (vale lembrar que o álbum foi gravado num estúdio ao lado de onde o Pink Floyd gravou seu LP de estreia, o que não descarta a possibilidade de não só o grupo de Barret ter sido influenciado por essa proximidade).
A gama de diálogos se amplia para além da música, e inclui referências de outras esferas da cultura do período (basta lembrar que Lennon conheceu Yoko numa exposição de arte de vanguarda). Uma gama de experiências que compartilha das buscas espirituais de sua geração e que vai do uso de substâncias para a expansão da consciência, ao mergulho nas práticas meditativas do oriente.
É lógico que caberia ainda  falar sobre a gama de inovações no uso de técnicas de gravação, transformando estúdio praticamente em um instrumento a mais e elevando a gravação de discos de rock a um patamar artístico que contribuiu para relativizar divisões entre cultura pop e cultura erudita, entre arte e cultura de massas, entre sucesso mercadológico e inovação estética. Também seria fundamental falar sobre o trânsito entre referências musicais que iam de formas de música popular anteriores ao rock, música indiana, rock psicodélico, música erudita contemporânea…
E como não ressaltar também o fato de que conseguiram provar que toda essa experimentação podia dar excelentes resultados de mercado: esse foi o primeiro álbum de rock a ganhar os Grammys de “melhor álbum do ano”, “melhor álbum contemporâneo”, a “melhor capa” e a “melhor engenharia de som”. Além disso, o LP bateu todos os recordes de venda (um quarto de milhão de exemplares na Grã-Bretanha já na primeira semana) além de ter permanecido quase meio ano no primeiro lugar do topo de vendas. A capa, então, além de inovadora, tornou-se uma das mais parodiadas da história e demandaria um capítulo à parte, ou um livro.
Enfim, nada do que possa ser dito parece ser suficiente para dar conta da gama de significados ou acrescentar algo novo sobre a importância do disco, mas, de qualquer forma, já que fui provocado pelo Show Musica a fazer essa reflexão, passo a bola adiante, deixando a provocação para quem seguiu esse texto até aqui, para que faça uma escuta comemorativa do álbum e deixe seu comentário: Afinal, o que a “Banda dos Corações Solitários” ainda tem a dizer para os habitantes da nave Terra em 2015?

 
 
 
 
 

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