A primeira vez a gente nunca esquece, por Tiago Sarmento

 
 
 
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A cada semana um convidado especial se junta ao Show Música para contribuir conosco e trazer uma visão diferenciada para nossos leitores. Nesta semana, Tiago Sarmento, guitarrista da banda Ferrovelho que também se apresenta em um trabalho solo voltado para o folk. Ainda lançou  dois álbuns – O que fizeram com você? – 2010 e Quando as cores acabarem – 2013, que representaram pensamentos e viagens de outras épocas. Além de grande apreciador de vinhos e das cervejas artesanais, atua na área acadêmica, como pesquisador de áreas distintas, indo da publicidade à psicanálise. Nesta crônica, o nosso amigo nos explica as sensações de sua primeira vez e outras vezes musicais – com o Aerosmith.

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A primeira vez a gente nunca esquece

 

Faz um tempo lindo em Ibitipoca. O sol é aconchegante e disfarça o gélido vento na serra. A madrugada de ontem foi boa. Com minha nova parceira, fizemos um show regado a Dylan, Led, Beatles, um Almir Sater e algum Zé Rodrix ali na meiúca. Os quase zero graus da madrugada só aumentaram a vontade de tocar. No final, o clichê dos Creedences e Steppenwolf estavam queimando a alma mais que a pinga com mel de Cruz-das-Moças do Broto Bambu. São momentos assim que fazem a gente ter tesão na música.

Mas eu não estava preparado para hoje.

Prepare-se e vá ouvindo abaixo, como trilha sonora do resto do texto

Neste sol e neste frio, enquanto estava em casa, ouço pela janela uma melodia familiar. A melodia se repetia. Quando fui olhar, um garoto de uns 13 anos passava cantarolando Janie’s Got a Gun. Repetia, em um inglês de Bagé, o verso “ruuuun awaaaaaaay, ruuuuuuun awaaaaaaay from the paaa-aaa-aaa-in”. Não era nenhum Steven Tyler. Mas convenhamos: um moleque de Ibitipoca cantar Aerosmith? Isso não se vê todos os dias.

Aerosmith foi a banda que colocou nos eixos – ou me tirou deles, diriam os pedagogos do colégio. Os anos se passaram e eles continuaram sendo minha banda favorita, mesmo eu tendo migrado pro folk. É uma relação dicotômica, como todas as relações verdadeiras: às vezes, o amor eterno, como quando completei a discografia em vinil ou quando Joe Perry respondeu uma mensagem de Facebook; às vezes, ódio mortal da pieguisse do Tyler ou de uns discos de capa rosa que deveriam ser queimados em praça pública. Mas o Aerosmith sempre esteve lá pra mim.

Por que escrevo sobre este assunto? Talvez seja o frio, talvez seja a chiboquinha. Talvez sejam as fotos que o Aero tem postado dos ensaios. Talvez seja o diabo no corpo. Talvez seja isso tudo.

Mas eu daria tudo pra ter 13 anos de novo e ouvir o Pump pela primeira vez de novo. Me lembro perfeitamente, no meu quarto lá na rua Pasteur, após ganhar o Get a Grip e ele em cd. Ouvir do início até o fim no repeat e pensar “caralho, que porra de banda foda é essa??”. Nos dias seguintes surgiram os outros; veio o Done With Mirrors, o Permament Vacation. Aí chegaram os primeiros que também explodiram a cabeça. Daria um fígado já abusado pra ouvir a introdução de Seasons of Wither ou Sweet Emotion pela primeira vez de novo, despreparado para o que aqueles acordezinhos me mostrariam. Daria um rim para chorar pela primeira vez de novo ouvindo What it Takes, lembrando de como minha primeira namorada e amor da vida à época me trocara por um playba genérico. Daria um pacote de bala maluquinha pra sentir o que senti quando ouvi You See Me Crying.

Acho que o universo deveria ter uma regra: emoldurar esses momentos. Deveríamos, sempre que necessário, entrar dentro desse quadro de novo, como no filme da Mary Poppins. Nestes momentos da vida – de colocar o cd da sua banda que viria a ser favorita, do primeiro beijo com a garota dos teus sonhos, do primeiro gol na escolinha de futsal, da primeira IPA – devia cair um aviso etéreo que congelaria o tempo e diria: “cara, aproveita esses segundos que eles vão mudar a sua vida. Saboreie”. Talvez déssemos mais valor a esse “nada”. Aqueles cinco segundos de absoluta certeza e dúvida abissal do desconhecido antes do BOOM!

No mínimo, o universo deveria permitir que a gente voltasse no tempo mais velhos e, pela fresta do armário como um bicho papão, presenciar você-moleque ouvindo o disco. Isso soa um tanto sexual predator, mas você entendeu o ponto. Você não se molestaria – ACHO. Algo igual o Interstellar: você mexeria nas cordas daquele momento e veria aquele que seria o momento definitivo, qualquer que seja – qualquer que tenha sido. À época, você não estava preparado. Sua cabeça explodiu, você ficou obsecado. Mas hoje você sabe o quanto aquilo fora importante. Duvido que não choraria mais que o Matthew McCoushbfdofeyrfbeufehey vendo sua filhinha descobrindo os mistérios do abismo. Duvido que não soltaria um “CARALHO” de dentro do armário e saía comemorando como o gol do Pet aos 43.

Um moleque em Ibitipoca cantando Janie’s Got a Gun… e eu aqui, ouvindo o Pump de novo. Vendo fotos dos caras no Instagram se preparando pra turnê. Mais de 40 anos de banda. Parece que ainda tenho 13 anos. Tão familiar, tão novidade.

Ah, o que eu não daria pra ouvir Aerosmith pela primeira vez de novo…
Mas eu nunca vou esquecer a primeira vez que escutei Pump. O universo emoldurou pra mim.
Tô tentando entrar no quadro de novo.
Dream on…

Ouça no Soundcloud os trabalhos autorais de Tiago Sarmento que em breve estarão também no Show Música Apresenta.

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O texto acima foi reproduzido a partir do original enviado e expressa uma opinião do convidado da semana. Desta forma pode não expressar, necessariamente, a opinião do Show Música.
 
 
 
 
 

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