“O Concreto já Rachou” – punk mainstream com crítica e musicalidade: trinta anos da estréia da Plebe Rude.

 
 
 

Seguindo a série dos álbuns que demarcaram o ano de 1985 como a consolidação do rock oitentista enquanto uma vertente significativa não só mercadologicamente, mas também culturalmente, vamos agora de Plebe Rude e seu “O Concreto já Rachou”. Punk rock traduzido para o mainstream com coerência, musicalidade, honestidade e uma produção muito bem sacada. Depois do primeiro LP do Legião Urbana ter colocado no mapa do Brasil a existência de uma forma bastante peculiar de movimento punk em Brasília, caberia à Plebe Rude consolidar esse lugar de destaque, com um dos discos mais bem resolvidos do cenário de bandas pós-punk que romperam o bloqueio das majors.
Apesar de mais focado nas referências punks, o mini LP com 7 músicas (formato adotado no período pelas gravadoras para testar a viabilidade comercial de bandas novas), no entanto assimilava timbragens e padrões de produção do pós-punk, mantendo, porém, um enfoque crítico nas letras, diferente dos conterrâneos da Legião que se permitiram ampliar o espectro de seu discurso também para temáticas, mas subjetivas.
Diferindo também do que predominava no movimento em nível nacional, o grupo se alinhava mais às referências ao punk rock, do que ao hardcore (mais rápido, agressivo e cru) que se tornava uma das vertentes mais fortes do punk brasileiro do período. Os resultados musicais e de produção (à cargo de Herbert Vianna) superaram as expectativas, preservando a agressividade, a pressão e a relativa simplicidade do gênero, mas com arranjos bem elaborados e ricos em nuances, que colocam o álbum facilmente entre os melhores do rock nacional dos anos 80. Também merece destaque o uso original de vocais cruzados, entoando frases diferenciadas, que em estúdio funcionaram como mais um diferencial estético.

 
 

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“Até quando esperar” abre o disco confirmando a tendência a uma forma de protesto que não tenta escamotear a realidade privilegiada de quem elabora a crítica (assim como em “Geração Coca-Cola” da Legião). Como na canção de Russo, o discurso é desenvolvido a partir do reconhecimento da condição de “burgueses sem religião”, mas que nem por isso se eximem da responsabilidade de questionar a realidade social e expor suas mazelas.
Musicalmente o arranjo já surpreende por uma das mais inusitadas e bem resolvidas aberturas do pós-punk brasileiro, com um solo de violoncelo (de Jacques Morelembaum – ex-Barca do Sol) anunciando a melodia, se valendo muito bem do contraste, entre a referência à esfera erudita e a batida punk que conduz a música. Em seu desenvolvimento, o arranjo mantém a pressão, sem cair para uma linearidade óbvia, oferecendo ao ouvinte surpresas rítmicas e melódicas à cada passagem, incluindo mais dois solos econômicos de violoncelo e guitarra. Um clássico imediato!
Em “Proteção” a experiência de quem cresceu à sombra do poder no período da Ditadura Civil-Militar é repassada, elaborando uma crítica direta ao autoritarismos, à censura, ao policiamento do cotidiano. Em meio a um, ainda suspeito, processo de abertura, a música traz à tona de forma direta uma crítica sufocada durante os anos de chumbo. O uso dos vocais cruzados ganha um efeito poético bastante interessante particularmente com a reiteração insistente da frase “É para sua proteção” em vocal grave e inexpressivo, sugerindo a hipnose da propaganda de um estado do totalitário.

O uso simbólico do militarismo retorna em “Johnny Vai à Guerra” já a partir da referência ao filme homônimo, terrível história sobre um soldado na Primeira Guerra Mundial que um dia, acorda em uma cama de hospital sem sua mobilidade e sentidos. Sem braços, pés, olhos, nariz,orelhas, lingua, maxilares. Ele no entanto, continua lúcido, mas incapaz de se matar ou sequer de comunicar-se. Apesar dessa referência, a canção tem um enfoque mais subjetivo, fazendo um paralelo entre a guerra e a relação dos jovens com a vida noturna, colocada como análoga a verdadeiras batalhas.
Já em “Minha Renda”, a banda traça uma das críticas mais diretas à relação problemática entre artista e indústria fonográfica no rock brasileiro dos anos 80 (junto com “Passamos por isso”, do Camisa de Vênus). A letra ironiza as tentativas de adulterar a proposta estética das bandas, para enquadrá-las nas premissas mercadológicas de uma indústria viciada em formatar “produtos” à pretensas fórmulas de sucesso. Procedimentos que contribuíram, em parte, para uma queda qualitativa na produção de grandes nomes da MPB e para a adulteração do som de muitos dos artistas do BRock, ao passar dos palcos, fitas demo e produções independentes, para os registros por grandes gravadoras.
A música, que citava nominalmente o “Paralama” Herbert Vianna, ironicamente contou com a participação do próprio, no trecho “Vou mudar meu nome para Herbert Vianna”, já que, independente da crítica, o guitarrista, após um show no Circo Voador, não só curtiu a música e a banda, como se ofereceu para produzir o disco.
“Sexo e Karaté” é um dos momentos mais lúdicos e adolescentes do álbum. Com uma levada punk mais explícita, une a crítica ao tédio e ao vazio das programações das TV (inclusive citando nominalmente a Rede Globo) com uma abordagem “nonsense” que mistura desencontros amorosos juvenis a uma crítica cultural. Vale destacar a participação discreta mais bem colocada de Fernanda Abreu no vocal, dando um certo toque “new wave” à canção.
Em “Seu jogo”, a Plebe e Vianna, novamente surpreendem no arranjo, ao ampliar as possibilidades do punk rock. De forma bastante inteligente se estabelece um diálogo sutil e bem resolvido entre as construções instrumentais da banda – que por si só, já criam climas diferenciados para cada momento da letra – e os sopros, utilizados de forma econômica e precisa.
Se a Legião já havia demarcado um lugar diferenciado para Brasília no rock nacional, o manifesto da canção “O Concreto já rachou”, traz uma radiografia contundente, ácida e niilista sobre a capital do poder. Sua denúncia, na linha “há algo de podre no reino da Dinamarca”, encontra a metáfora mais clara, na deterioração física da arquitetura da cidade, projetada para ser um símbolo do poder e que, como o próprio poder, não conseguiu servir positivamente à à coletividade. O retrato social traçado, é de descrença e alienação.
A Plebe Rude é um dos vários casos que comprovam que o rock Brasil dos anos 80 tem muito mais a ser resgatado do que os poucos grupos e artistas que permaneceram em evidência por questões de melhor enquadramento no mercado ou por outras casualidades de suas histórias particulares. Apesar do impacto do lançamento desse mini LP, o grupo não alcançou a mesma repercussão em seus trabalhos posteriores, mesmo mantendo a coerência e consistência. Um álbum para ser revisitado e para servir de porta de entrada para o trabalho da banda e para toda uma cena alternativa da qual, o que chegou ao mainstream foi apenas a ponta do iceberg.

 
 

Formação:

 

Phillipe Seabra: voz e guitarra-solo

Jander Bilaphra: voz e guitarra-base

André X: baixo

Gutje Woortman: bateria

 
 

Participações especiais:

 

Fernanda Abreu: voz em “Sexo e Karatê”

Jaques Morelenbaum: Cello em “Até Quando Esperar”

Luiz Augusto: Trombone em “Seu Jogo”

Herbert Vianna: voz em “Minha Renda”

George Israel: saxofone em “Seu Jogo”

Henrique Trompete: Trompete em “Seu Jogo”

 
 

Décadas depois, uma ponte Brasília/SP. “Plebe Rude” em nova formação, com o Clemente da lendária banda paulista “Inocentes”

 

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