Tupi or not Tupi – Rock e música brasileira, cumplicidade para além dos antagonismos.

 
 
 

Com a aproximação da data em que se comemora (só no Brasil) o Dia Mundial do Rock*, nada mais providencial, do que discutir um pouco sobre o significado do rock, para a música brasileira. E nesse sentido uma primeira questão que veio à mente foi: afinal, Rock brasileiro, ou rock feito no Brasil? Essa questão parte de dois caminhos principais que o rock tomou no país. De um lado, a tentativa de fazer “Rock no Brasil”, ou seja de tentar reproduzir em solo local, as formas gringas desse gênero, buscando o máximo de fidelidade, muitas vezes inclusive, abrindo mão da língua portuguesa e defendendo a ideia de que o uso do inglês seja fundamental para se ter o verdadeiro rock.
O outro caminho (que assim como o primeiro se subdivide em uma infinidade de ramificações e possibilidades) representaria uma busca de se criar identidades locais para o rock feito no Brasil, e que vão desde a busca de adequar o gênero ao português falado no Brasil, até inúmeras possibilidades de hibridação entre o gênero e manifestações da música popular brasileira.
Não é nosso objetivo comprar briga de uma possibilidade em relação a outra, até porque ambas produziram frutos que foram contribuições reconhecidas para a música brasileira e mundial. Por um lado temos momentos brilhantes em que a tentativa de reproduzir as fórmulas gringas geraram resultados de grande qualidade, culminando inclusive em casos como o da banda de metal Sepultura, que se tornou uma referência mundial no gênero. Por outro lado, temos experiências inovadoras, na misturas de rock com música brasileira, partindo do Tropicalismo de bandas como os Mutantes, até a fusão perfeita, do Mangue Beat de Chico Science e Nação Zumbi.

 
 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=_f1tq6lutF8&w=420&h=315]

 

Um fenômeno bastante comum, particularmente ao longo da década 70 e 80, foi a tendência a essas hibridações acabarem sendo mais identificadas como MPB, do que como rock. Foi assim com parte das experiências tropicalistas, com o rock rural de Sá,Rodrix e Guarabira, com a psicodelia nordestina de artistas como Alceu Valença, Zé Ramalho, Lula Cortes e da banda Ave Sangria… enfim… poderíamos citar dezenas de casos.
Não é nossa proposta que nenhum roqueiro mude seu gosto e passe a ouvir música brasileira no lugar de rock, mas sim que se tenha uma visão mais ampla do quanto o desenvolvimento do mercado e das sensibilidades (tanto entre o público, quanto entre músicos) para o rock no Brasil, deve muito a esses processos de hibridação, e como toda uma série de possibilidades de renovação dentro do rock ainda podem se processar a partir do reconhecimento desse legado do rock brasileiro.

 
 

A banda mineira Sepultura, apesar da fidelidade ao metal, se arriscou a renovar a possibilidades do gênero a partir de referências culturais brasileiras:

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=F_6IjeprfEs&w=420&h=315]

 
 

Reunião da nata da psicodelia nordestina dos anos 70: Alceu Valença, Zé Ramalho, Lula Cortes e integrantes da banda Ave Sangria (entre outros):

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=rnc84s-i3ew&w=420&h=315]

 
 

Movimentos que abriram possibilidades surpreendentes a música brasileira como o Tropicalismo e o Clube da Esquina, só encontraram sua forma definitiva à luz da influência do rock dos Beatles & Cia, e das novas perspectivas comportamentais da contracultura, aplicadas à juventude brasileira através da cultura do rock.
Só para começo de conversa, vale clarear a percepção de que, o instrumento icônico para 90% do rock, a guitarra elétrica, teve entre seus primeiros heróis brasileiros, figuras que tiveram trânsito tranquilo entre o rock e a música brasileira, vide Sérgio Dias (personagem chave, tanto para o rock psicodélico/progressivo dos Mutantes, quanto para a MPB tropicalista), Pepeu Gomes (eletrificando a brasilidade dos Novos Baianos), Robertinho de Recife (indo do instrumental brasileiro, sendo peça chave para a MPB psicodélica dos nordestinos da geração de 70, pioneiro da new wave e do heavy metal, pop brega com o Yahoo e virtuose na fusão de rock e erudito), Lanny Gordin (gênio da guitarra pós-tropicalista), Sérgio Hinds (do Terço, para o suporte elétrico a vários artistas da MPB) só para citar alguns.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=WxwQhrfTEc8&w=420&h=315]

 
 

Vale lembrar ainda que, para bem ou para mal isso continua a acontecer até hoje, inclusive em gêneros como Axé e o Sertanejo Universitário, que em grande parte foram constituídos a partir de fórmulas musicais herdadas do pop rock, e que conta, com músicos oriundos do rock, em grande parte das formações que acompanham os artistas que ganham a fama pelo sucesso do gênero.
Também no quesito, renovação de público, o rock foi fundamental em relação a vários momentos da música brasileira, como na aproximação do público jovem à música instrumental brasileira nos anos 70, que deveu muito ao gosto pela elaboração e experimentação legado pelo rock progressivo e pelo psicodelismo. Formados no gosto pela virtuose e pela ousadia que o rock dos anos 60 e 70 exercitaram, muitos jovens imbuídos do espírito inquieto da contra-cultura, acabaram por adotar como correspondentes nacionais o experimentalismo sonoro de artistas como Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal.
Até mesmo em momentos relativamente recentes, o rock teve um papel fundamental nessa renovação de público, como à partir da, quase onipresente influência na cena alternativa, há não muito tempo atrás, da ponte extremamente pessoal feita pelos Los Hermanos entre indie rock e MPB, que acabou levando muita gente mais afeita a Weezer e bandas afins, a descobrir Chico Buarque, Noel Rosa e Cia. Não era nada raro chegar em festivais de música alternativa e ter a sensação de que 9 entre 10 bandas, tinham ecos dos país da deserdada “Ana Júlia”, dentro de um espectro de gradações estilísticas que iam da MPB contemporânea ao indie rock.

 
 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=x-gGJg8_-Uk&w=420&h=315]

 

Com isso tudo, encerramos concluindo, que puxamos essa prosa toda, só para lembrar o que poderia ser óbvio, mas que nem sempre é claro, principalmente para as novas gerações (mas também para muito xiita de cabelos brancos), que é o fato de que, rock e música brasileira têm muito mais a ver do que possa julgar nossa vã filosofia e poderiam muito bem cantar em dueto a música que o Tropicalista Caetano fez, pensando na relação entre Tropicália e Bossa Nova: “eu, você, nós dois/ já temos um passado meu amor…” Indo bem pro clichê, deixem soar as guitarras e os tamborins!

 
 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=KmZArGX3AfM&w=420&h=315]

 

Encontro de dois gênios da guitarra brasileira:

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=GOnhW4NHEIw&w=420&h=315]

 

*Obs.: Apesar de sua ampla aceitação no Brasil, o dia 13 julho (originalmente a data do evento Live Aid, que em 1985, reuniu um grande número de artistas, em prol da luta contra a fome na Etiópia), é contestado por muitos enquanto data mais adequada à comemorção do rock. Alguns apontam 5 de julho, quando, em 1954, Elvis Presley gravou uma versão mais rápida do blues “That’s All Right”. Outros preferem 9 de fevereiro, quando, em 1964, os Beatles se apresentaram pela primeira vez nos EUA, ao mesmo tempo em que em algumas partes desse pais, comemora-se o dia 9, por ser o dia da estreia do programa “American Bandstand, de Dick Clark.Como para Show Musica, todo dia é dia de rock, e somos um site brasileiro, e o combate à fome na África aponta também para às questões das origens do rock, Tá valendo! Nos juntamos à comemoração.

 
 
 
 
 

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *