Sepultura – Bestial Devastation 30 anos depois

 
 
 

Continuando a sequência de textos que celebram os aniversários emblemáticos da história da música, não poderíamos deixar de fora os 30 anos de um álbum de suma importância pro rock e, principalmente, pro heavy metal do Brasil. Estamos falando de Bestial Devastation, o primeiro registro do Sepultura. Lançado em Dezembro de 1985 pela lendária Cogumelo Records, em split com o Overdose, foi o pontapé (no estômago) que expôs pro resto do mundo que havia algo diferente do banquinho e violão em terras tupiniquins.

 
 

O contexto

 

Seria impossível falar do Bestial Devastation sem citar a chamada “cena metal” de Belo Horizonte-MG na década de 80. Mesmo que houvesse outros centros no país onde o rock pesado já tivesse representantes, o que aconteceu em BH foi algo único e difícil de explicar. Em primeiro lugar, cabe frisar que esse não é o primeiro registro de música “extrema” no Brasil. Em São Paulo, o clássico Crucificados Pelo Sistema, do Ratos De Porão, por exemplo, já havia sido lançado. No Rio, já havia saído o primeiro split da Dorsal Atlântica junto com a banda Metamorphose, chamado Ultimatum, e esses são só dois exemplos de materiais que foram gravados e lançados anteriormente.

O surgimento das bandas de metal no país se deu, obviamente, a partir do momento que o acesso a artistas de referência no estilo chegam aos ouvidos da molecada. O termo “metaleiro” e suas consequentes reverberações só seria cunhado pela Rede Globo no Rock In Rio I (que aconteceria no mesmo ano), e raramente algum som do estilo tinha espaço na TV. As poucas rádios que tocavam rock no país dedicavam apenas faixas específicas da programação, e ainda assim o ouvinte dependia de estar no alcance da antena de transmissão. Soma-se a isso o fato de que, pra quem ainda não sabia, não existia internet na década de 80. Fora o preconceito com “aquele bando de cabeludos” que, a bem da verdade, de arruaceiros não tinham quase nada. Pois é, se já era difícil ouvir heavy metal em Belo Horizonte, imagina tocar. Faltavam instrumentos, equipamentos, técnica, casas de shows que comprassem a ideia. Mas havia o material humano, e a partir dos encontros nas portas das poucas lojas de disco que existiam foi se estabelecendo a tal “cena de BH”. A mais famosa das tais lojas da época, a Cogumelo Discos, acabou se tornando o primeiro selo de metal de Minas Gerais, ao decidir apostar as fichas na banda Overdose, uma das primeiras da cidade a fazer shows, e no Sepultura, que já mostrava sinais de que trilharia rumos musicais bem distintos.

Na época formado por Max e Igor Cavalera, Paulo Jr. e Jairo Guedz, o Sepultura foi uma das bandas escolhidas para gravar o split não em função do apuro técnico ou da experiência dos músicos, havia outros nomes que preenchiam melhor esses quesitos. A questão é que os irmãos Cavalera & cia traduziam exatamente o contexto do metal de BH: eram toscos, agressivos, sem firulas, faziam muito som com pouco equipamento, e lotavam shows com pouca estrutura. Em resumo, a cena mineira era tão “do it yourself” quanto os punks de São Paulo ou o rock bahiano, mas com uma diferença: não aguentava mais a tradicional família mineira. E no caos ordeiro da capital planejada, era realmente necessário que um bando de moleques tocassem o zaralho e dessem um novo ar ao rock nacional.

 
 

O álbum, faixa a faixa

 
 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=cBeVHaxROQk&w=640&h=360]

 

Gravado no Estúdio J.G., Bestial Devastation foi todo captado em um dia. Sim, todas as faixas foram captadas em somente um dia, conforme conta o produtor “parcial” do disco, Gauguin, que foi chamado às pressas depois que o Sepultura resolveu demitir o primeiro produtor, Tarso, por divergências musicais. Como as grandes influências da banda no momento eram Venom, Destruction, Kreator e outros nomes do metal europeu, o objetivo era entregar um som sujo, agressivo, incômodo. Missão cumprida.

A intro do disco, The Curse (que nem a banda se lembra quem gravou a voz), já fica clara a tosqueira que o Sepultura pretendia, ou tinha recursos pra executar. O sujeito não canta, é uma sequência de arrotos declamando um singelo poeminha: “A maldição está lançada, prepare-se / O Senhor da Morte declarou guerra / Satanás é invocado para destruir / E comandar a devastação bestial”. Na sequência, a faixa-título do disco é A CARA do Venom e, à medida que o disco se desenvolve, começa o contraste entre essa faixa e o restante. É a faixa em que Igor Cavalera erra menos, já que, como foi a primeira a ser gravada, foi abordada pelo baterista ainda descansado. Não há nada de demérito nos vacilos de beat registrados no disco. É até um tempero, mostra quão jovem e imaturo era o Sepultura naquele momento, exatamente o lance mais divertido do Bestial Devastation. Porque, do ponto de vista técnico, o disco é sofrível. Mas bota a cara pra bater.

Na música Antichrist (cuja letra é de autoria de Wagner Lamounier, do Sarcófago), fica claro que ninguém da banda havia chegado perto de um metrônomo até o momento. Cada instrumento vai pra um lado, mas é exatamente isso que faz a música funcionar. Basta comparar com o cover feito pela banda sueca Sacramentum, no álbum-tributo “Sepulchral Feast”. A versão original, mesmo com todos os vacilos, é muito mais interessante. Confira e tire suas conclusões:

 
 
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=1ymo0cBz_Xk&w=480&h=360]

 

Necromancer, a quarta faixa, seria uma excelente faixa de metal alemão, se não fosse uma excelente faixa de metal mineiro. Nela, percebe-se nitidamente como Max Cavalera ainda não havia amadurecido (ou destruído) sua voz, tanto que fica clara a necessidade de um overdrive daqueles com timbre de liquidificador. Por ser uma faixa mais grave, é a única no disco em que se ouve alguma coisa do baixo de Paulo Jr.

O trunfo de Warriors Of Death, faixa que fecha o disco, é sem dúvida o solo de Jairo Guedz. Até hoje o sujeito é um excelente guitarrista, criativo, tem excelente gosto pra compor e merece uma audição mais dedicada. Warriors Of Death é certamente a melhor música de Bestial Devastation, e é a que mais se aproxima do som que o Sepultura iria fazer nos discos seguintes. Em resumo, ouça no talo e faça a casa do seu vizinho tremer.

Fãs xiitas, entendam uma coisa: todos esses detalhes e “defeitos” que expomos no disco não são, de forma alguma, negativos. Na verdade são ótimos. Se você não é capaz de entender isso como uma ode à história do Sepultura, talvez a mensagem que a própria banda sempre quis transmitir de transcender os limites musicais ainda não tenha entrado na sua cabeça. Os caras não são deuses, são seres humanos que admitem o próprio processo de evolução pelo qual continuam passando. Experimente também, você vai se divertir muito mais.

 
 

Pra finalizar, fica de cereja do bolo “Ruído das Minas”, um documentário que conta essas e várias outras histórias da cena metal de Belo Horizonte da década de 80
 
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=8EEGZUz2jI0&w=480&h=360]

 
 
 
 
 

You May Also Like

0 thoughts on “Sepultura – Bestial Devastation 30 anos depois

  1. Excelente artigo, parabéns! Sem delongas ou mimimis de fanatismo pela banda ou pelo Max… mas é um dos meus albuns favoritos do Sepultura.

  2. Demais!
    Só faltou falar quem indicou o caras para a Cogumelo, foi o Korg (Chakal, The Mist, The Unabomber Files), ele era o cara que fazia a ligação da Cogumelo com a galera na época das fitas k7, o disco ia ser só Overdose.
    Nostalgia da porra aqui!
    O cara que fez a introdução foi o Marcelo, não me lembro sobrenome, salvo engano, acho q tem no encarte, era um chegado dos caras!

    “Vamo detonar essa porra! O som tá pau?! Ta do jeito que ces gosta?! Ta tudo desafinado mas nós vamo tocar assim mesmo”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *