Ciudad Lineal, por Fellipe Coutinho

 
 
 

A cada semana um convidado especial se junta ao Show Música para contribuir conosco e trazer uma visão diferenciada para nossos leitores. Nesta semana o belorizontino, Fellipe Coutinho, blogueiro responsável pelo Fritas com Maionese, cinéfilo e futuro jornalista. Ele se diz uma cria perdida da cultura pop e aficionado pela icônica década perdida dos anos 1980. Ele nos traz, em sua visão, a banda espanhola Ciudad Lineal, que dentro de todo o caos e desespero da crise que assola seu país, faz um som que remete aos samplers e temática blasé oitentista.

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CIUDAD LINEAL S/T cs de Ciudad Lineal (2013)

 
 

Em 1977 na Europa, a visão de um mundo tomado por guerras e pelo medo de um massacre nuclear definiram a temática lírica de um novo gênero musical. Em uma época de crises e indefinições, o pós-punk se afligia com a proximidade da virada do século, e se o punk rock representava os ânimos agitados de uma bebedeira, ele (o pós-punk) por sua vez representaria a ressaca infernal do dia seguinte.

O pequeno desenvolvimento tecnológico da época já permitia que ritmos fossem reciclados através dos “instrumentos computadorizados” – sequenciadores, samplers e controlers-, que gravam, modificam e inventam qualquer som desejado. As composições minimalistas, bastante simples, agora amparadas pelos sintetizadores ampliaram os horizontes sombrios do pós-punk, inspirando toda uma subcultura, legitimando, assim, ao longo dos próximos trinta anos, uma sucessão de gêneros, ou talvez ondas. São exemplos destas o new wave, darkwave, coldwave, e até mesmo o gothic rock.

Estamos em setembro de 2013, Espanha. Uma crise assola o país. O desemprego atinge recordes históricos, crianças vão à escola nas férias para comer.  Aproximadamente 25% da população vive na pobreza. Nesse contexto de desengano tão semelhante à década de 1980, uma pequena banda oriunda de Barcelona lança seu primeiro álbum pelo selo RØAM. Atendendo pelo mesmo nome que intitula seus autores, o EP Ciudad Lineal T/S cs é disponibilizado com cinco faixas na internet pelo preço que você quiser pagar.

 
 

Galeria de imagens


 
 

Sons eletrônicos de aspecto polifônico, similares aos mesmos emitidos pelos antigos aparelhos de tecnologia 8 bits, nos transportam diretamente para o “conceito futurista dos anos 1980” quando o sustain de um baixo denso emerge, evidenciando algo clássico do pós-punk, e então um sintetizador… Notas soturnas de um sintetizador lôbrego completam a composição da melodia que nos dá frias saudações. A atmosfera está criada quando teclados entram em disparidade. Marcando o dinamismo, Movimiento quase poderia ser dividida em duas faixas quando enfim nos apresenta o grave vocal de Víctor e boa parte da exasperação lírica que torna tudo aquilo genuíno, autêntico e, ao mesmo tempo, “sui generis”. Como esperado, a melancolia é dançante.

Já não se fazia necessário ir além da capa de Ciudad Lineal S/T cs para ser tragado por uma atmosfera lúgubre. Não há cores, não há vida, apenas a figura de mármore que ilustrará um dos versos de Ruinas. O obsessivo teclado futurista se prepara para convergir com a incitação contida nas repetidas notas do baixista, o qual anuncia em um grito,“Hey!”, o início de um dançante embate autômato marcado pela percussão incessante e pleonástica. Claramente instituída na estética minimalista pós-punk, legitimada pelos momentos de “silêncio” (nesse caso, dos vocais), ampliando a carga reflexiva daquelas belas e lamuriosas estrofes empostadas.

 
 
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A terceira faixa do álbum se encarrega de transparecer o espírito exausto e desconsolado diante das mazelas dessa sociedade retrofuturista que se ergue de maneira inconsequente, deixando profundas marcas, “cicatrizes de neón”. Aqui fica comprovado que Víctor divide de igual para igual as cordas de seu baixo com as teclas do sintetizador de Susana. É impossível imaginar Estructuras sem tal linha de baixo. Com freqüências graves, ele completa a atmosfera “icy-warm” que as letras demandam. Com o baixo e o teclado no mesmo plano, somados ao maquinário pesado simulado pela bateria eletrônica de Néstor, a guitarra se torna dispensável. Não há espaço para o som orgânico. O refrão “cristal y acero” [vidro e aço] é repetitivo, muito cativante e bastante simples. Ao se abster dos vocais se torna reflexiva. De certo ponto em diante, ficamos completamente imersos nessa extensão convulsa.

É chegada a hora de sermos tragados pela conjunção mais nebulosa do disco. Reflejo incide sobre nós uma débil melancolia temperamental. Pautado por um baixo funesto e o pesar de uma percussão compassada, o teclado ecoa arrastado enquanto os poéticos lamentos de insegurança e frustração nos embalam em uma canção morosa, que finalmente descamba sob o peso mecânico e frenético das batidas que encerram a faixa.

Enfim, o niilismo de Controlaqui valendo como negação dos valores da nossa geração se mostra tão forte quanto o de seus precursores de trinta anos atrás. O refrão, altamente contagioso, “no necesito la verdad”, elucida muito bem esse aspecto subversivo. O pós-punk tem sua parcela niilista muito forte, em seu sentido mais pessoal, de decepção ante às crenças e conceitos pré-estabelecidos, incluindo aí o próprio estado de espírito em uma desconstrução lenta da sobriedade. Há um furor nas linhas do baixo que não dão trégua. As batidas estafantes da percussão eletrônica funcionam como pistões à vapor de um motor da sublevação anarquista. Combinados a esses pistões, os synths assinam mais uma vez o emblemático new wave dançante.

 
 

Ouça o disco completo no Bandcamp da banda

 

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Bebendo diretamente na mesma fonte que as clássicas bandas de pós-punk e new wave de décadas atrás, cada instante do álbum é nostálgico, intenso, e representa um primeiro passo auspicioso na carreira desse conjunto espanhol que surpreende em sua genuinidade num contexto como o nosso. A julgar pelos estilos musicais, temas explorados e sua abordagem, não seria equívoco interpretar a obra como metódica. Todavia, muito se engana quem classifica suas inspirações ou a repetição empregada nos arranjos como prolixas e maçantes. Ao brincar com a conformidade rítmica, a banda nos apresenta um trabalho linear, dançante e agradável aos sentidos, nos permitindo divagar imersos na profundidade de sua lírica emotiva. CIUDAD LINEAL T/S cs é um perfeito recorte do desencanto sentimentalista dos anos 1980, além de uma grande cortesia aos adoradores do gênero amortizado.

 
 
 
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O texto acima foi reproduzido a partir do original enviado e expressa uma opinião do convidado da semana. Desta forma pode não expressar, necessariamente, a opinião do Show Música.
 
 
 
 
 

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