Segmentação no metal: diferença de gostos ou desunião? – por Júlio Slayer

 
 
 

A cada semana um convidado especial se junta ao Show Música para contribuir conosco e trazer uma visão diferenciada para nossos leitores. Nesta semana, Júlio Slayer, vulgo Júlio César de Oliveira. Fã de Fórmula 1 e de metal, baterista de mão cheia que faz parte de diversas bandas como Los Kactus, Eta! Noise e Acoustic N’Roll. Nesta crônica, o nosso amigo expõe um histórico detalhado sobre a cena do metal em Juiz de Fora e as suas ramificações que pouco se integram atualmente.

 
 

Júlio Slayer
Júlio Slayer

 
 
 

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Segmentação no metal: diferença de gostos ou desunião?

 
 
 

A segmentação da cena metal local nada mais é que um reflexo do que vem acontecendo, de forma globalizada, nos últimos dez anos. Em um mundo cada vez mais tecnicista, não surpreende que tal conceito tenha trazido de vez subdivisões e segmentações (que já existiam antes), de uma forma mais clara e separatista.

Longe são os anos quando punks, hard rockers (na época os posers ou farofeiros) e headbangers acabavam sendo obrigados, de forma salutar, a compartilharem os mesmos eventos e locais alternativos de encontro.

A sub-divisão dentro heavy metal é algo antigo, que nos remete as fortes conseqüências globais seguintes a explosão da NWOBHM (movimento britânico que revelou ao mundo bandas como Iron Maiden, Saxon e Def Leppard) entre 1979 e 1982. Diversas vertentes surgiram e a subdivisão cada vez maior de estilos e suas respectivas tribos, acabou sendo algo natural, principalmente nos grandes centros, onde as opções de escolhas eram tão abundantes quanto possíveis.

 
 

O cenário em Juiz de Fora

 

Em nossa Juiz de Fora a situação era bem diferente. Dentro do espectro de eterna cidade média, pronta para explodir, nascia uma cena que aos poucos se expandia pela cidade. Bandas como Albatross, Apocalipse, Profecia, Eros, Black Widow e Ossiação nasciam e formavam uma cena inicial, oriunda do que acontecia no resto do país, como também do rock dos anos setenta e eventos marcantes como a apresentação do Kiss no Brasil, em 1983 e a primeira edição do Rock In Rio, em 1985. Nessa época a dificuldade por informação, discos e mesmo por um espaço de encontro, produzia uma união quase automática, decorrente de tais percalços.

Minhas primeiras memórias de criança remetem aos meados dos anos de 1980 (mais precisamente 1987), quando assisti meu primeiro show de “heavy metal”, no parque Halfeld, da clássica e pioneira banda Profecia. Para uma criança com menos de 10 anos de idade era simplesmente mágico poder participar de alguma forma de tudo que acontecia.

 
 

1991 – DCE – Juiz de Fora – Público esperando o show do Terceiro Reich (também tocaram o Black Widow e Brutal Distortion)

 
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Com o passar dos anos a cena cresceu, produzindo algumas bandas que se tornaram cults dentro da cena local e mesmo nacional, como Patrulha 666, Gamorra, Mephisto, Nuclear Hell, Brutal Distortion, Sepulcro, IDR, Tuka’s Band, Abbadon, Icarus e muitas outras, que norteavam os caminhos pelos quais a cena da cidade percorria entre 1988 e 1992. Nessa época já existia uma segmentação, mas os caminhos e locais percorridos por todos que escolhiam esse estilo de música e seu consequente modo de vida era, basicamente, o mesmo.

 
 

Galeria –  bandas proeminentes

 


 
 

Situação essa que se tornou ainda mais veemente na crise dos meados dos anos de 1990, quando a cena encolheu da mesma forma que havia crescido até 1992. Entre 1995 e 1998 os shows foram, aos poucos, diminuindo o que, de forma natural, acabou unindo ainda mais os que continuaram nesse barco. A chama da cena pesada agora era mantida por bandas como Brainstorm (futuro Abstract), Vorace, e os sempre presentes Sepulcro, Black Widow ou Ossiação.

Em 1999 aconteceu o primeiro festival de Bandas Novas, evento que revolucionou a cena local (independente do que qualquer tipo de opinião pessoal, contra ou favor do mesmo) e deu uma nova explosão a cena de Juiz de Fora. Embora o festival englobasse bandas de todos os estilos, as vertentes mais pesadas do Rock eram, quase sempre, a maioria e bandas como Autumn Flowers, SPIT, Dittohead, The Plague, Bewitched Moon são apenas algumas que se revelaram na cidade tendo algum tipo de participação no festival.  O evento não só cresceu por si só, como também deu força às cenas já existentes, como as bandas mais voltadas para o punk/hardcore, o rock/metal mais clássico. Até mesmo a (cada vez mais radical) cena do metal extremo, se beneficiou com as conseqüências da nova exposição do rock pesado dentro do Festival de Bandas Novas.

 
 

 1992 – Sepulcro no Espaço Mascarenhas (atual CCBM)

 
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Podemos dizer que essa foi, provavelmente, a última das gerações que acabou, por algum motivo, frequentando e participando de eventos não tão segmentados. A evolução do movimento, a partir de meados dos anos 2000, indicou caminhos cada vez mais improváveis dentro do rock e acabamos chegando a um ponto onde, pessoas que gostam de estilos de músicas extremamente próximos, não frequentam mais os mesmos eventos ou locais, simplesmente porque seu “grupo” de amigos não está inserido ou não tem afinidade com outros micro-grupos surgidos com tamanha segmentação. Tais acontecimentos dão a ideia de uma cena grande e cheia de opções, onde tal divisão não prejudicaria nenhum dos lados segmentados, mas a realidade não reflete tal premissa. A cidade não cresceu ao ponto de sustentar todas essas cenas e, como o esperado, a questão acabou afetando de forma mais proeminente os que já eram, anteriormente, a minoria. E isso afeta não só a quantidade de público, como também a qualidade técnica dos eventos. Hoje temos, de um lado, eventos muito bem produzidos e executados (e com audiências, em sua maioria, muito boas), para um público que podemos chamar de “rockeiros de boutique” e um outro, que segue com seus fieis escudeiros de 30 anos atrás, mas que sofre com a pouca variedade de bandas da cena local, baixas audiências e também com produções mais precárias, decorrentes, entre outras coisas, da segmentação citada nesse texto. Sendo um caminho natural do cada vez mais técnico e específico mundo em que vivemos, é difícil pensar em um futuro diferente, já que tudo caminha para uma acentuação ainda maior de tais tendências. Nos resta então apenas torcer para uma maior igualdade (principalmente no quesito da qualidade do produto oferecido) entre todos aqueles que habitam e contribuem, de alguma forma, para a cena da música pesada local.

 
 

2000 – Abstract

 

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O texto acima foi reproduzido a partir do original enviado e expressa uma opinião do convidado da semana. Desta forma pode não expressar, necessariamente, a opinião do Show Música.

 
 
 
 
 

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