Ultraje a Rigor – Trinta anos de irreverência e a piada ainda funciona como um bom rock’n’roll

 
 
 

Retomando a série sobre álbuns trintões do rock brasileiro, vamos dessa vez do lado mais irreverente da cena roqueira de 1985. Não chego a me considerar o cara mais indicado para falar de humor. Sou do tipo que se assiste a uma comédia sozinho, em casa, é capaz de encarar as situações mais risíveis pelo seu viés trágico, ou pelo menos melancólico. Woody Allen, sozinho, então, pode significar ter que ligar no dia seguinte para o analista ou buscar alguma nova seita ou livro de autoajuda. Mas, brincadeiras, à parte, mesmo que esse álbum não fosse já cotado por várias listagens, seria difícil não incluí-lo na lista dos melhores do rock brasileiro e uma falha lastimável não comemorar os seus 30 anos de lançamento (ainda que com atraso, já que seu lançamento foi em julho).
Mesmo não concordando em muita coisa com o pensamento atual do Roger, é impossível não reconhecer como o humor desse disco sobreviveu tão bem ao tempo, assim como sua sonoridade a um só tempo divertida e consistente. Mais ainda – é difícil deixar de lembrar como cada nova faixa que chegava à programação das rádios era surpreendentemente boa numa das áreas que considero das mais difíceis da arte: fazer rir sem apelação e com inteligência. Destaque para produção precisa de Liminha e Pena Schimidt duas figuras igualmente fundamentais para o rock brasileiro dos anos 80.
 
 
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O LP teve seu caminho preparado na verdade pela boa repercussão da banda em compacto, a começar pelo sucesso da impactante sátira político-social “Inútil”. Curiosamente, um dos dados que mais incomodaram alguns conservadores da época na abordagem corrosiva do nosso subdesenvolvimento, não foi exatamente a escrachada carga política, mas sim a forma como a letra agredia o dito português correto, expondo em cadeia nacional, ao vivo e a cores o linguajar popular.
Além do foco central na irreverência das letras, o álbum, conquistava também pela consistência musical, aliando a urgência do rock mais básico (incorporando reggae e o ska, bem ao gosto da new wave) com um instrumental seguro e bem executado. Se por um lado, sugeria uma vinculação às novas correntes que aportavam tardiamente no país naquela década – principalmente o punk e a new wave – não abria mão de uma certa autonomia estética, que talvez tenha contribuído para que o disco hoje soe menos circunscrito aos padrões oitentistas.
Indo de críticas sociais consistentes, ao besteirol explícito de “Marylou”, esse álbum de estreia conseguia se safar bem da síndrome da piada que perde a graça depois de contada várias vezes, tanto pelas sacadas humanas inteligentes, quanto pela eficiência musical que não se acomodava em ser apenas um suporte para as gracinhas do Roger. O disco, em termos de rock era bem tocado, bem arranjado e, o principal (para uma época em que o rock começava nas danceterias, antes de chegar a ginásios e estádios), era extremamente dançante. Esse era daqueles discos de colocar pra tocar em festa, da primeira à última faixa do lado A, virar e tocar o lado B inteiro sem que quase ninguém chiasse. Tudo bem que mais cedo ou mais tarde isso teve seu ônus e resultou em algum desgaste pela superexposição na mídia, mas até aí o estrago estava feito, e a praia, devidamente invadida.
 
 
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A música título abre o álbum já “na pressão” com uma bem sucedida fusão de rock, surf rock e ska, e uma letra irreverente que ganha ainda mais com as participações especiais de um time de roqueiros cariocas, que faziam a “recepção” aos invasores paulistas do Ultraje. Além do humor da letra, o instrumental e a produção são precisos, criando um clássico automático. Destaque para as excelentes intervenções de guitarra, e pelo casamento preciso das múltiplas combinações vocais.
Na faixa seguinte, “Rebelde sem Causa”, o humor de Roger ganha um toque de crítica social contra uma parcela do próprio público consumidor potencial da banda. O jovem roqueiro “filhinho de papai” é retratado com requintes de ironia, ao mesmo tempo em que a abordagem musical – particularmente, a bateria de inspiração new wave – criam uma atmosfera intencionalmente “abobalhda”, perfeita para o personagem expressar seus “dramas” de bem nascido.Bastante adequada ainda hoje para muitos rebeldes sem causa de plantão.
 
 
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A autoironia dá a tônica em “Mim quer tocar”. Um reggae bem conduzido, mas de entonação um tanto quanto preguiçosa, embala uma crítica às relações entre música e finanças assim como à precariedade de um cenário do rock brasileiro, ainda em processo de profissionalização, com direito inclusive a tratamentos bastante desiguais entre os “gringos” e os “brasukas” num dos eventos emblemáticos do período, o Rock In Rio .
Um rock’n’roll típico e extremamente eficiente,”Zoraide”, se volta para a temática das relações de forma bastante avessa a qualquer clichê romântico. A tônica é bastante jovem, pleiteando um relacionamento sem compromissos, bem focado numa ótica masculina. Se a letra não é um dos pontos altos do disco, a eficiência roqueira compensava, permitindo que a audição do disco seguisse sem interrupções em nove entre 10 festas em meados 1985 e 1986.
E o vigor criativo retorna em “Ciúme”, outro hit radiofônico e clássico instantâneo. Novamente são as relações que ganham pauta, também por um viés que retratava as mudanças comportamentais do período. Dessa vez é a insegurança e possessividade do homem, o objeto da sátira, num contexto em que as liberdades sexuais e afetivas pleiteadas pelas gerações de 60 e 70 ganhavam finalmente espaço mais amplo. O resultado desse conflito é mais um rock preciso, bem conduzido e de produção eficiente.
“Inútil”, que já não era novidade tendo sido um dos primeiros hits a alavancar a carreira do grupo, ao ser lançada em compacto(Inútil/Mim Quer Tocar e Eu Me Amo/Rebelde Sem Causa), já fazia parte do repertório ao vivo dos Paralamas do Sucesso, que além de executá-la no Rock In Rio I, contou com um comentário apologético de Herbert Viana, que chegou a dizer que o Ultraje era uma das bandas que deveria estar ocupando o palco do evento. Minimalista, entre o Punk e a New Wave, trazia um dos comentários mais sintéticos e precisos sobre o cenário do cambaleante processo de redemocratização “lenta e gradual”, que despertava mais descrença que euforia, por parte da juventude.
“Marylou” assume o lado besteirol inconsequente bem típico de turmas adolescentes, mas novamente o disco escapa de cair na indigência, por uma produção muito bem resolvida. Não é uma das melhores piadas do grupo, mas sobrevive a novas audições. Já “Jesse Go” traz uma das primeiras boas críticas ao boom do rock nacional e sua criação de “astros” instantâneos e a megalomania e egocentrismo resultantes. Talvez muita gente tenha vestido a carapuça, outros apenas tenham seguido acreditando no próprio mito até que a realidade o trouxesse de volta à terra, mas o certo é que haviam mais “Jesses” entre o palco e plateia, do julgava nossa vã filosofia. Novamente “ponto” para a percepção social sobre a “comédia humana” dos anos 80.
E como se não bastassem toda essa gama de abordagens sacanas sobre a realidade social do universo pop dos anos 80, em “Eu me amo”, o grupo faz um brilhante e hilariante mergulho nas buscas existenciais. A letra é inacreditavelmente acertada, valendo por uma sessão de psicanálise ou por um bom filme do Woody Allen. E novamente a musicalidade da banda está afiadíssima traçando um comentário sonoro perfeito para a busca do inquieto personagem.
 
 
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E até mesmo a gravidez indesejável, ainda um dilema na época – mesmo entre jovens liberados de classe média alta – dá margem a um rock divertido e dançante em “Se Você Sabia” . E os novos modelos de relacionamento dão a tônica também em “Independente Futebol Clube”, a boa decisão de incluir um registro ao vivo no primeiro álbum de estúdio, permite ter uma noção de como a banda funcionava bem nos palcos e porque tomaria o Brasil de assalto após lançamento do disco.
Em síntese, um LP que consegue fazer um quadro rico de questões que faziam sentido para a juventude dos anos 80 (e talvez ainda façam algum sentido hoje), mas que, independente disso, ainda funciona como um bom e despretensioso álbum de rock.
Em 2008 o disco foi apontado pela Revista MTV como o “melhor álbum do rock nacional”, título mais do que polêmico e sujeito a todo o tipo de protestos e questionamentos, mas o fato é que, méritos não lhe faltam para ser incluído, no mínimo entre os álbuns mais divertidos e eficientes do rock brasileiro, o que já não seria pouca coisa. Eu particularmente acatei sem protestos essa escolha, por mais que pudesse citar mais uns 10 que mereceriam o posto.

 
 

Formação:

 

• Roger Moreira: voz e guitarra base
• Carlo Bartolini (Carlinhos): guitarra solo e vocais
• Maurício Defendi: contrabaixo elétrico e vocais
• Leonardo Galasso (Leôspa): bateria e vocais

 
 
 
 
 

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