Andreia Lira

 
 
 

Em Quebra o Coco encontramos um miríade de várias tendências que atravessaram a música brasileira desde o fim do século XIX até os dias atuais. O álbum nos traz dois pioneiros que, a seu tempo, tiveram impacto tanto na música quanto na vida social brasileiras na virada para o século XX: Alberto Nepomuceno e Chiquinha Gonzaga. Nepomuceno foi além de grande compositor, incansável educador, tendo sido um dos primeiros diretores do Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ), incluiu o canto em língua portuguesa no currículo do Instituto, abriu cursos noturnos visando a formação profissional de músicos, regeu obras de compositores brasileiros, inclusive do então desconhecido Heitor Villa-Lobos. Embora seja visto como um precursor do nacionalismo, sua escrita é essencialmente romântico europeia, com forte influência do Lieder Schubertiano e da ópera wagneriana, ainda que seja bastante reconhecível seu esforço em, ao menos iniciar um diálogo com gêneros da música popular brasileira. Lavra desta forte influência romântica, Coração Triste e Trovas são dois exemplares perfeitos do pleno domínio e da forte inspiração do compositor cearense no gênero. Chiquinha Gonzaga é um exemplo claro de como o hibridismo de uma formação, eminentemente clássica ao se “misturar” com as práticas musicais da vida cotidiana do final do século XIX, criou um repertório ao mesmo tempo bem acabado tecnicamente e extremamente original, com os dois pés na música popular urbana nascente. Dela, temos Não se impressione, parte de uma opereta que pode ser entendida como um ancestral do hoje em voga teatro musical e Lua Branca, uma da canções mais representativas do que veio se chamar seresta.
Herdeiros dessa tradição, o triunvirato do nacionalismo musical brasileiro também está presente no álbum: Camargo Guarnieri, Francisco Mignone e Heitor Villa-Lobos. Os três compositores sofreram, em níveis distintos, forte influência do projeto estético para música brasileira do escritor e musicólogo Mário de Andrade. De Guarnieri , O cd traz três canções, entre elas a que dá nome ao álbum “Quebra o coco”. Somada a esta, têm-se ainda Vamos dar a despedida” e Cantiga da mutuca. Em comum, todas exalam brasilidade que tanto Mario de Andrade clamava nos seus escritos, com um olhar e manuseio técnico herdado do pensamento musical europeu. Mignone aparece no cd com Dona Janaína, canção que , entre outras, inclui percussão (um grande achado do cd que dá todo um outro sabor a canção sem descaracteriza-la), valorizando de sobremaneira afro-brasilidade marcante do compositor paulista. Fechando esse trio de ferro da música brasileira, Villa-Lobos, nome que virou sinônimo da própria música clássica brasileira, surgindo aqui com uma de suas canções mais célebres, Melodia Sentimental.
O CD ainda resgata canções pouco conhecidas de outros nacionalistas de peso, Luciano Gallet e Lorenzo Fernandez. Ambas as canções, Taieras (Gallet) e Canção do Mar (Fernandez), além de pouco gravadas, são também raríssimamente executadas, sendo certamente desconhecidas por boa parte dos intérpretes. Andreia ainda nos conduz por uma das Lendas Amazônicas de Waldemar Henrique, a famosíssima Uirapuru, misto de narrativa mágica quase recitativa. O álbum também abre espaço para novos compositores, buscando estabelecer o elo de continuidade entre o passado e o presente. Leandro Renó, jovem pianista e compositor mineiro, atualmente estudando na Alemanha, retoma o mito de Iracema, imortalizado por José de Alencar, ao compor uma obra, O canto de Iracema, que trafega entra a canção e aria lírica. Jorge L. Santos, compositor e violonista pernambucano, escreveu a obra Por que sou forte para canto e violão, única faixa que não há piano, a partir de texto de Narcisa Amália, um dos grandes nomes da literatura brasileira do século XIX, ainda que pouca conhecida até hoje da maior parte dos brasileiros. Ambos os jovens compositores, ao seu modo, recriam a canção de câmara brasileira na atualidade.
Quebra o Coco é uma obra de resgate, de valorização e afirmação da força do cancioneiro brasileiro de câmara e da forte marca que este deixou na cultura brasileira.

 
 

Galeria de fotos

 


 
 

Histórico

 

Bacharel em canto pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Andreia Lira dedica-se à música clássica e popular, dando enfoque ao repertório nacional. Em 2014, foi contemplada pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura com o projeto para a gravação de CD de músicas eruditas brasileiras intitulado “Quebra o Coco” com lançamento previsto para setembro de 2015. Integrante do Duo Lira & Lopes e do Duo Guaranis, interpreta o repertório nacional erudito e popular. Lírico, Choro, Samba, Bossa Nova e MPB dão cor às suas apresentações.
A cantora também desenvolve um trabalho de longo prazo com o repertório de Música Antiga, tendo sido integrante dos Grupos de Música Antiga Gesta Aquilana e Lira Antiga. Em 2012, foi selecionada para o XV Festival e Concurso Internacional de Canto no Peru, se apresentando na cidade de Trujillo e realizando masterclass com renomados regentes e cantores como o Maestro Carlos Aransay (Esp./Ing.) Em 2014, venceu concurso e foi solista junto à Orquestra de Câmara Pró Música interpretando as Bachianas Brasileiras N.5 de Heitor Villa-Lobos. Andreia Lira tem atuado no âmbito nacional, tendo recebido este ano seu primeiro convite para cantar fora do país, interpretando música brasileira.
Artista multifacetada, estudou dança de salão e dança Oriental, integrando a Cia Tablado Árabe. Foi também por nove anos atleta de artes marciais, tendo logrado o grau de faixa preta e o título de campeã no Brasil Open de Judô. Atualmente se dedica ao estudo do teatro.

 
 

Ouça

 
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Vídeo

 
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Técnica

 
Andreia Lira –  voz / Marcos Lopes –  piano / Flávia Lima –  percussão  /Jorge L. Santos –  violão (faixa 9) / Produção executiva: Andreia Lira / Produção fonográfica: Ricardo Rezende (Nave estúdio) /  Direção musical: Jorge L. Santos
 
 

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