As cores vivas do som – Musicalidade para além dos grandes hits

 
 
 

Não costuma ser muito fácil, ao escrever sobre música popular, separar o lado público, história pessoal, do lado objetivo, crítico racional. Na dúvida prefiro deixar claro, que não vou me esforçar muito em fazer isso. O grupo “A Cor do Som” foi uma referência forte na minha adolescência, assim como para muitos que estavam naquele sábado na plateia do Cultural Bar, e eu estava lá para tentar reatar alguns fios de conexão entre esse cara que sou hoje e aquele moleque que ouvia as coisas sem saber muito bem o que era o quê no mundo da música.
O certo é que na época em que comecei a me interessar mais seriamente por música, eles eram “os caras”. Um dos grupos musicais de maior sucesso da virada da década de 70 para 80, eles traçaram uma ponte muito bem equacionada entre o espírito livre, hippie da música de grupos como os Novos Baianos (do qual eram descendentes diretos), e a guinada pop que abarcaria tanto a MPB quanto o rock da década de 80. Além disso, fizeram uma ponte eficiente entre a sempre alternativa faixa de produção e consumo da música instrumental e o mainstream (raramente afeito a grandes ousadias).
Além disso, em termos de imagem, foram um dos grupos símbolos de uma nova juventude, que passava a respirar os ares de um país um pouco mais livre – em pleno processo de redemocratização – e que parecia disposta a viver com mais leveza e positividade, tudo o que havia sido reprimido e podado nas duas décadas anteriores (embora isso se revelaria bem menos real do que se esperava). E ali estávamos nós, com uns trinta anos a mais de juventude na alma, prontos para deixar que ouvidos e corpos extravasassem as expectativas represadas de novos e velhos sonhos, ao lado de outras gerações que vieram se somando e atestando a capacidade de sobrevivência do som dos caras.
Os eventuais cabelos brancos não tiraram do grupo a musicalidade afiada, aliada a um sábio poder de comunicabilidade, que garantem ao grupo a moral de poder abrir o show não com uma das canções que se tornaram hits radiofônicos. No lugar disso, o grupo sobe ao palco já de cara mostrando sua veia instrumental, primeiro atributo que garantiu ao grupo um espaço de destaque na MPB do final dos anos 70. Vale lembrar que ao chegar aos primeiros discos, o grupo já trazia uma larga experiência acompanhando Morais Moreira, e que o nome “A Cor do Som” inicialmente denominava um grupo de apoio aos Novos Baianos (sendo a alcunha, uma sugestão de Caetano Veloso).
Outro ponto que dá a esse retorno um tom mítico era estar diante da formação clássica com a qual o grupo se consagrou. A tribo que gravou o primeiro álbum instrumental em 1977: Dadi Carvalho, no baixo (que integrou o Novos Baianos e a banda de Jorge Ben, seu irmão Mú Carvalho (ex- A Banda do Zé Pretinho) nos teclados, Gustavo Schoreter (integrante da lendária banda A Bolha), na bateria e Armandinho Macêdo (lenda viva da guitarra brasileira e integrante do pioneiro Trio Elétrico Dodô e Osmar), na guitarra baiana – além do fundamental percussionista Ary Dias, que se juntou à trupe no segundo LP, gravado ao vivo em Montreaux em 1978.
E para uma partida que já estava praticamente ganha pela competência musical, não faltou ao repertório também, todo um arsenal afetivo, composto por canções que marcaram uma época e ao mesmo tempo, vêm atravessando gerações: “Abri a porta”, “Beleza Pura”, “Zanzibar”, “Menino Deus”, “Alto Astral” entre composições dos próprios integrantes e de nomes da MPB como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Dominguinhos, lembrando, que além de excelentes músicos, o grupo era bem enturmado.
E por falar em turma, um momento mágico do show foi a participação de um ex-integrante juiz-forano da trupe, o músico Joãozinho da Percussão, que nos idos dos 70 foi presença fundamental tanto no grupo quanto em formações que produziram verdadeiros clássicos ao lado de nomes como Jorge Ben, Chico Buarque, Pepeu Gomes e Novos Baianos. Mágico momento de reencontro e de uma poderosa reinvenção brasileira para o “Bolero de Ravel”.
Como saldo final, fica a sensação de que as cores continuam bem vivas na sonoridade desses jovens senhores e que – se o grupo conta com o recurso de grandes hits radiofônicos no seu repertório para garantir a interação com o público – é ainda no vigor de seus temas instrumentais que parece estar a chave para sua permanência. Em momentos como a instrumental “Frutificar” (do tecladista Mú) destacada pelo próprio mestre de cerimônias, Armandinho, como uma das mais belas obras da banda, têm-se a noção clara de porque, apesar de ter embalado vários verões nas rádios e nas vidas de inúmeras pessoas, um show do grupo não se reduz a um mero revival oitentista.
Trafegando por fronteiras que vão do rock (progressivo e psicodélico), passando pelo jazz, chorinho e outras vertentes rítmicas brasileiras, “A Cor do Som” traz em sua sonoridade uma síntese de toda uma gama de experiências da música brasileira dos anos 70 que permanecem ainda válidas e passíveis de novas apropriações por novas gerações de músicos, o que devolve ao grupo um sabor novo.
Algumas décadas de juventude acumuladas por baixo dos eventuais fios de cabelos brancos, bons momentos de boa música… e aquela canção “pop-mântrica-hippie” que não quer sair da mente no caminho de volta pra casa: “Dentro da minha cabeça/ tenho um pensamento só/ sei que não tenho juízo/ dentro da minha cabeça/ enquanto a onda bate forte/ dentro da minha cabeça…”.

 
 

Para entrar no clima

 
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