Abre Alas: Caetano Brasil lança seu primeiro álbum solo, por Nathan Itaborahy

 
 
 

Periodicamente um convidado especial se junta ao Show Música para contribuir conosco e trazer uma visão diferenciada para nossos leitores. Nesta semana,  Nathan Itaborahy, geógrafo, músico, baterista da banda Blend 87, poeta, escritor, dentre tantas facetas. Nesta crônica, o ele faz uma resenha minunciosa sobre o primeiro álbum solo do multitalentoso Caetano Brasil (que você pode conferir alguns dos áudios AQUI).

 
 

Nathan Itaborahy

 
 

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Abre Alas: Caetano Brasil lança seu primeiro álbum solo

 
 

É festa aqui. E é pelo som. Pela possibilidade de ouvir. Pela possibilidade de criar e ver a criação. É festa porque a audição do primeiro álbum de Caetano Brasil faz celebrar a felicidade de compartilhar tempos e espaços com esse músico juizforano tão talentoso.

O CD foi viabilizado pelos recursos da Lei Murilo Mendes (Lei de Incentivo à Cultura de Juiz de Fora) e é um Ritual de Iniciação: um registro do acúmulo de experiências do multi-instrumentista até aqui e um prenúncio de uma belíssima carreira por vir. Caetano é figura certeira nas rodas de choro e gigs da cidade, já dividiu o palco com o grupo Lúdica Música e com o baixista Dudu Lima, além de acompanhar o grupo de teatro Ponto de Partida, com o qual apresenta a peça “Ser Minas Tão Gerais”, ao lado de Milton Nascimento e mestres da Universidade Bituca de Música Popular. Esse trabalho é um ritual de iniciação de quem já sabe muito bem por onde andar, mas quer construir caminho próprio. Talvez por isso a música Abre Alas de Chiquinha Gonzaga seja a primeira do trabalho.

 
 

Galeria de fotos

 


 
 

A releitura, além de uma anunciação, é uma primeira amostra das referências de Caetano: um diálogo entre a brasilidade do choro e a influência cosmopolita e libertária do jazz e da música instrumental contemporânea. Me peguei assobiando a levada do baixo logo após a primeira audição. Todos os climas, vazios/crescidas e improvisos são ricos e cheios de cores, já avisando o que o músico veio dizer com seu primeiro trabalho solo.

Se este CD traz o frescor e a energia da pouca idade de Caetano Brasil, ele evidencia uma postura madura, de quem sabe aonde quer chegar. Isso é revelado através das composições – Caetano assina oito das nove composições, dividindo a autoria da bela “Damasco” com Rafa Castro –, dos arranjos e da execução. Percebe-se o cuidado com as nuances, com a sobreposição dos sopros e com a atmosfera de cada música. Há uma preocupação, ainda, com a totalidade do disco, onde se revela sua faceta de produtor.

(É preciso um parêntese: Caetano participou da elaboração do projeto, arranjou todas as músicas, agendou e negociou tudo, articulou toda a logística e as pessoas para realização deste trabalho… Na arte, sobretudo na música, tem que se atuar no ataque, no meio de campo e na defesa. Desconheço CD’s que tenham saído em tão pouco tempo como esse. A produção executiva é mais uma prova de que este trabalho evidencia a maturidade do músico com seus vinte e poucos anos.)

Em apenas um dia, pasmem, Caetano Brasil (clarinete, clarone, saxofone, flauta e flautim), Adalberto Silva (contrabaixo acústico e elétrico), Gladston Vieira (bateria), Rafa Castro (acordeom, teclado e piano) e Rick Vargas (percussão) gravaram as músicas “ao vivo” (todos juntos em estúdio), esforço que cobra uma afinidade musical e uma precisão complexas. Isso mostra, além da sensibilidade e técnica apuradas dos músicos, uma profunda interação entre eles, algo que aflora em som. Posteriormente acrescentaram-se as dobras de sopros executadas também por Caetano (bem evidentes nas faixas “Eu sou phodda!” e “Damasco”) e as participações especiais de André Pires (acordeom), Fabrício Nogueira (cavaquinho) e Samy Erick (violão).

Os arranjos e dinâmicas do álbum são orgânicos: o som acaba sendo um pouco “mixado” pelas próprias mãos de quem está tocando. Isso é rico e raro, principalmente em tempos de hegemonia da produção musical artificializada e pasteurizada, feita com artifícios tecnológicos que contam cada vez menos com a musicalidade. O elo entre os músicos faz muito bem para o trabalho. A gravação “ao vivo” dá para o disco uma certa força do momento, que é própria do ritual coletivo da música, do fazer junto e interagir. É o aqui-e-agora.

(Salta aos ouvidos a coesão “cozinha” formada por Gladston Simas, Adalberto Silva e Rick Vargas: os músicos dão chão para o som, mas são extremamente sutis e “educados”. Conseguem ser firmes e delicados, o que dá uma certeza para o todo, permitindo os voos harmônicos e melódicos de Caetano e Rafa Castro. Seguramente, uma marca deste trabalho.)

O grande destaque do álbum é a faixa Damasco. Ainda que sem palavras, a música é uma história: cheia de lugares, insinuações, conflitos, geografias… É como se fosse possível estabelecer uma narrativa através das notas musicais. Nela viaja-se com o ouvido por terras árabes, com belíssimos arranjos de sopro, concepções rítmicas cheias de referências e timbres apropriados ao embarque. Se Damasco tivesse poesia, seria necessária a criatividade de um Chico Buarque para conversar com a complexidade dessa história.

Escute este CD com o coração e a imaginação. Viaje também. No fim, quando voltar ao seu lugar de origem, talvez queira festejar e sinta algo parecido com o que senti: felicidade pela coexistência com esse grande artista e uma fé renovada na música feita hoje.

 

O lançamento oficial do CD será no dia 12/12, às 20 hs na Sociedade Filarmônica de Juiz de Fora, na Rua Oscar Vidal, 134, Centro, Juiz de Fora/MG.

 
 

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O texto acima foi reproduzido a partir do original enviado e expressa uma opinião do convidado. Desta forma pode não expressar, necessariamente, a opinião do Show Música.

 
 
 
 
 

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