#Entrevista – Dignatários do Inferno

 
 
 

 É som do demo? De encapetado? E quando toca alguém fica chocado? Sim e não. Os Dignatários do Inferno  (que estão no nosso Apresenta) não estão aqui para defender esta ou julgar aquela religião. Temas como a defesa do Estado laico participam dos enfoques deste som pesado, nervoso e profundo que se juntam à “pratecamiente praga do dia” preconizada por pelo gênio do lado B do terror Zé do Caixão. Confira abaixo a conversa que tivemos com Bernardo Falcão, o dignatário-mor.

Demo não é um demo. É o álbum!
 
 
 
De onde surgem os Dignatários do Inferno?
 
Eu desde 2009 tinha um projeto, o Oãxiac Odéz, onde a ideia era homenagear o mundo de José Mojica Marins. Seria a minha banda Electric Church (tributo a Hendrix) fazendo Thrash Metal. Porém, precisei arquivar o projeto devido a compromissos profissionais. Ano passado retornei para Juiz de Fora e desenterrei o projeto. Em parceria com o meu amigo Luci Tenebrion, consegui deixar 8 músicas prontas, porém, sem letras. Meu amigo PHJM sugeriu: já que você defende tanto o Estado Laico, questiona tanto as religiões, por quê você aborda essa temática? Então ali mesmo, escrevemos juntos a primeira letra, que acabou definindo o rumo da banda: Moisés. O nome da banda resolvi mudar para Dignatários do Inferno em homenagem à Jinx Dawson e à banda Coven. Apesar de ser ateísta, não crer em deus e nem no diabo, acho um nome muito bom. O tempo foi passando e consegui compor mais 6 músicas durante o processo e hoje temos 14 músicas no total.
 
 
Assim como o nome, a temática das letras é intencionalmente chocante e cutuca uma série de feridas sociais, políticas e religiosas. Há alguma experiência pessoal retratada nas letras?
 
Não explicitamente. Mas a forma que nós ateus, somos tratados e desrespeitados, me levou a por no papel tudo isso aí. Não podemos aceitar imposições religiosas. Não podemos deixar que o Estado Laico seja violentado, onde temos uma bancada evangélica querendo enfiar a bíblia goela abaixo das pessoas. As cagadas da igreja católica não podem ser esquecidas. Nunca! Chega de banho de sangue em nome deus. Estamos caminhado para uma teocracia. Não aceito e ninguém deveria aceitar. A Idade das Trevas ocorreu entre os séculos V e X. Muita gente morreu para que hoje pudéssemos fazer trabalhos assim. Muita gente boa, diga-se de passagem.
 
 
Tom Zé descreveu (muito bem, diga-se de passagem) o atual paradigma comunicacional como “tribunal do feicebuqui“, em que qualquer um com acesso a redes sociais se dá o direito de julgar o comportamento alheio. E vocês abordam esse tema na música “A Era Da Ira (Bucha)“. Vocês já tiveram algum problema com a “patrulha politicamente correta da internet“? 
 
Exatamente. Esta música foi feita para os “haters” de Facebook. Por trás do computador, todos são maiorais, mas frente à frente, viram santinhos. A banda ainda não recebeu nenhum ataque. Apenas algum muçulmano que postou um vídeo resposta no Youtube falando sobre Maomé. mas na vida pessoal, sou constantemente atacado por “não ter deus no coração”. Olha, esse deus aí, que segundo a bíblia matou mais de um milhão, que te dá livre arbítrio mas te queima no inferno caso você não o siga, que apoia a escravidão, pedofilia, racismo, pena de morte, sinceramente, ninguém precisa dele não. Todos somos donos dos nossos próprios destinos, que nada mais são, o resultado das nas nossas escolhas. Ou seja, NÓS somos Deus. A simbologia cristã ocidental está tão incutida na nossa sociedade que até nas nossas cédulas de dinheiro vem escrito “Deus Seja Louvado”. Não só os ateus, mas qualquer expressão religiosa fora dessa orientação, como as matizes africanas, também sofrem uma evangelização forçada. Eu, por exemplo, adoraria ver escrito: “Hendrix seja louvado”, ou Iommi seja louvado. Mas como tenho consciência que o Estado é laico, fica apenas na minha imaginação. Felizmente há um projeto de lei que visa a retirar esta frase das notas, refletindo assim, a laicidade do Estado. Torçamos pela retomada da coerência.
 
 
Vocês gravaram tanto o primeiro material, “Demo”, quanto o disco “Impastor”, no Estúdio Mother’s House. Como foi trabalhar com o Leo Schroder?
 
Eu sou suspeito para falar do Tio Léo Hell. Conheço-o desde sempre, dos shows de Metal da vida. Conhecia o trabalho dele com o Abstract. Desde abril de 2015 estamos trabalhando juntos para criarmos o caos. Neste período sim, conheci o Léo, e ganhei um amigo. Além de ser um dos maiores guitarristas que vi na vida, tem um conhecimento ilimitado quanto a gravações. Tem um tato sensacional. Sabe conduzir, produzir muito bem os músicos. Muitos solos foram influenciados por pequenos comentários dele. Ele sabe deixar você dar tudo de si, e quando você desiste, ele vem e dá a luz mágica que resolve a equação. O mais importante, ao meu ver, é distribuir conhecimento como ele faz. Temos um deus da guitarra em Juiz de Fora. Um mestre.
 
 
E qual a importância do produtor não só no processo de captação e edição, mas na composição e definição estética de um artista? Pergunto isso pois muita gente chega no estúdio com a cabeça feita de que o disco está pronto, não aceita as orientações do produtor e acaba com um material final raso.
 
No meu caso, eu chegava com as músicas prontas no estúdio, uma vez que meu parceiro de composições, Luci Tenebrion, além de excelente guitarrista, também produz. Acho importantíssimo o produtor estar “afinado” e ajudar no processo, mas não gostaria de ver nenhum produtor impondo mudanças no meu som. Não permito autocensura.
 
 
“Demo” foi gravado por você, na voz e guitarra, Jim Salomão no baixo e Ronwe Vekum na bateria. Qual foi o time que gravou “Impastor”? 
 
Eu gravei as guitarras, a maior parte dos baixos e vocais. O Daniel Dan Dan se encarregou das baterias e o Jim Salomão gravou os baixos nas faixas 1, 3 e 8.
 
 
Você faz questão das suas convicções musicais, e escolheu gravar no Mother’s House em função dessa sintonia com o Leo, mesmo sabendo que o resultado final não tem o mesmo apelo comercial do contexto radiofônico atual. Qual a sua opinião sobre aquele artista que opta mudar o som em função da aceitação, do “sucesso”?
 
Na verdade, quem me apresentou ao Léo “Produtor” foi o Ronwe Vekum, nosso baterista do Demo. Foi uma feliz coincidência ter dado tudo certo. Vou tentar ser o mais educado possível na resposta. Eu pouco me importo com o cenário atual radiofônico. A maioria das rádios toca lixo. L-I-X-O. Não vou citar estilos. Eu compus este álbum para mim. É música, é grito, caos, tudo vindo das minhas entranhas, um reflexo meu. Se agradar a mais alguém, ótimo! Uma pessoa só e fico feliz. Quanto a mudar o próprio som para adequar-se ao cenário musical, eu preferiria ser torturado até a morte pelo ISIS. Retornamos assim, ao lance da auto-censura. Na verdade eu estou é pouco me lixando pras rádios. Falo da rádio mainstream, aquela que você liga no carro, porque tem rádios online que são ótimas.
 
 
Qual foi o equipamento utilizado na gravação? investimento em setup apropriado faz diferença na definição da estética musical?
 
Guitarras: Gibson SG e Fender Stratocaster, pedais HyperFuzz II, da Boss e WahWah da Vox. Cabeçotes Mesa Boogie Strategy 500, Marshall JCM 900, 9200 e JMP1 de pré-amp plugados numa JCM 800. O setup é uma das coisas mais importantes na construção do som. Seria a fundação do som. Se você usa equipamentos medianos, tudo o que você fizer à frente ficará comprometido. Poder investir em equipamentos, tanto para gravar, quanto para tocar, sempre é uma opção muito bem vinda.
 
 
E qual sua opinião quanto à galera que troca o trabalho autoral pelo tributo a tudo e a todos?
 
Infelizmente as casas noturnas tem aberto mais espaço para covers, chegando ao meu ver, ao absurdo de vender a banda original como show, e citando em letras miúdas, a banda que vai tocar. Esta tendência aos poucos vai soterrando o trabalho autoral.
 
 
Mas você considera válido uma banda “vender a mais-valia” em função da grana ou é importante bater o pé em prol do som autoral?
 
Infelizmente, as bandas precisam seguir esta tendência para sobreviverem, abrindo mão de tocar o próprio som. Toquei Hendrix por 18 anos. Cansei. Agora só toco com os Dignatários do Inferno. Custe o que custar.
 
 
Quais são as sua influências na hora de definir o som dos Dignatários do Infernos?
 
Jimi Hendrix, Black Sabbath, The Cream, Ten Years After, King Crimson, Acid King, Electric Wizard, Slayer, Brujeria, RDP, Sepultura, Wo Fat… São muitas (Risos)!
 
 
E quais os próximos planos da banda com o lançamento do disco? 
 
Nossa ideia é fazer um show de lançamento e em seguida sair tocando por aí.
 
 
Pra concluir nosso bate papo. Tem algum artista novo que chamou sua atenção?
Uma banda “nova” (pelo menos para mim), que recentemente me deixou HORRORIZADO foi a Deathscar. Death Metal de primeiríssima qualidade. De arrepiar mesmo. Infelizmente a banda acabou, mas graças a Hendrix, ainda temos o nosso Chuck Schuldiner de Juiz de Fora, o João Pedro Cardoso, um dos melhores que vi na cidade.
 

 

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