Pra não dizer que não falei de João Santana, MPB nordestina dos anos 70, meteoritos, marketing e publicidade.

 
 
 

Não se assuste, o Show Musica não virou um site de política, nem de fofocas sobre celebridades e esse texto não pretende trazer nenhuma informação bombástica, nem de ataque, nem de defesa sobre o homem-forte do marketing político. Vamos falar de música como de costume, e de um passado razoavelmente longínquo (como é um dos nossos vícios). Vamos de volta aos anos 70, e a uma outra persona encarnada por João Cerqueira Santana Filho junto a um dos grupos mais respeitados da efervescente cena da música popular nordestina jovem , que no período, transitava entre a contracultura hippie e o resgate de raízes regionais e nacionais.
Santana era então o “Patinhas”, letrista e um dos principais responsáveis pelas composições do Bendegó, juntamente com o fundador e virtual líder do grupo em todas as suas formações, Gereba. Uma das obras-primas da dupla Gereba e Patinhas, além de gravada pelo próprio grupo, encontrou sua interpretação definitiva na voz impecável da cantora Diana Pequeno, no início dos anos 80: “Sinal de amor e de perigo”.
“À noite e a cidade parece que some/Perdida no sono dos sonhos dos homens /Que vão construindo com fibras de vidro /Com canções de infância, com tempo perdido/Um grande cartaz um painel de aviso/Um sinal de amor e de perigo/Um sinal de amor e de perigo/Há tempo em que a terra parece que some/Em meio a alegria e tristeza dos homens/Que olham pros campos pros mares cidades /Pras noites vazias, pra felicidade/Com o mesmo olhar de quem grita no escuro/O melhor foi feito no futuro/O melhor foi feito no futuro/Enquanto o amor for pecado e o trabalho um fardo/Pesado passado presente mal dado/As flores feridas se curam no orvalho/Mas os homens sedentos não encontram regato/Que banhe seu corpo e lave sua alma/O desejo é forte mas não salva/O desejo é forte mas não salva/Enquanto a tristeza esmagar o peito da terra/E a saudade afastar as pessoas partindo pra guerra/Nós vamos perdendo um tempo profundo/A força da vida o destino do mundo/O segredo que o rio entrega pra serra/Haverá um homem no céu e deuses na terra…”
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Assim como vários outros músicos de sua geração, Santana/Patinhas provavelmente encontrou na publicidade (assim como no jornalismo) uma forma mais estável de sustento diante da precariedade e das oscilações e imposições do mercado musical brasileiro. Vale dizer que a contribuição da geração da MPB setentista para o desenvolvimento da então incipiente publicidade brasileira, talvez merecesse um estudo mais profundo. Mas podemos destacar que alguns nomes fundamentais à música do período tiveram forte atuação na área. Nomes como Sá e Guarabira, Zé Rodrix, Tavito e Renato Teixeira, são apenas alguns dos mais notórios e que produziram inclusive uma série de jingles que, além da eficiência mercadológica, se tornaram parte da memória afetiva de algumas gerações.

 
 

 
 

Mas nos anos 70, Santana era o “Patinhas” do Bendegó ou Bendengó (grafia do nome do grupo em seu primeiro álbum) trupe de baianos e igualmente novos, que misturava a musicalidade tradicional nordestina, com linguagens modernas para a época, e mesmo com direito a passagens experimentais. Santana tinha em seu círculo de amizades, tropicalistas como Caetano Veloso, o guru esperimentalista Smetak e mergulhou de cabeça no “desbunde” hippie e na psicodelia, além de ostentar um nada discreto cabelo black power.
Como mostra da credibilidade que o grupo alcançou no período, vale destacar que eles atuaram com o “guru” experimentalista Walter Smétak (mestre dos músicos que formariam o Uakiti e referência para vários outros artistas), trabalharam ainda com Gilberto Gil, com o maestro Rogério Duprat (um dos arranjadores fundamentais para a estética do Tropicalismo), além de terem participado, em 1975, do álbum Jóia, de Caetano Veloso.
 
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Álbum do suíço/baiano Walter Smetak, amigo pessoal de Patinhas, contou com a participações de Gereba e Capenga (do Bendegó) Tuzé de Abreu, Djalma Côrrea, Capenga, Caetano Veloso, Roberto Santana, Helena, Anrea, Heloísa, Jorge Bradley e Ray“, que segundo a ficha técnica, participaram das improvisações tocando os seguintes instrumentos: Violão afinado em microtom, Violão, Choris, Sóis, Árvore, Colóquio, Peixe, Panelas, Tambor de sopro, Flautas, Vox, Piano, Assovio, Ronda, etc.

 
 

Invasão nordestina nos anos 70

 

Fruto de uma das cenas mais ricas da história da música brasileira, o Bendegó participou de um momento (seria talvez inadequado falar em movimento) em que, do norte/nordeste do país foram irradiadas possibilidades múltiplas de reabilitação das tradições musicais populares à luz da psicodelia, do rock e de várias outras referências contemporâneas, produzindo artistas e grupos como Ave Sangria, Lula Côrtes e Zé Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Amelinha, Kátia de França, Vital Farias, Ednardo, Marlui Miranda, Alcides Neves, Tiago Araripe, só para citar alguns.
Um fenômeno estético/mercadológico, que se não pode ser chamado de movimento e se não tem uma aparência de unidade, como o Tropicalismo ou o Clube da Esquina, teve um efeito revitalizador sobre a música brasileira que merece maior atenção. E lá no meio disso tudo estava João Santana, ou melhor “Patinhas”, com seu visual hippie, como os de seus pares de banda e de geração, como responsável pela maior parte dos versos de um dos principais grupos dessa cena.
O nome do grupo Bendegó , em Tupi significa “caído do céu” , referência ao nome dado a um meteoro encontrado em 1784, próximo a cidade de Monte Santo, no sertão da Bahia, pelo menino Bernadino da Motta Botelho, quando tomava conta de algumas cabeças de gado. De grande importância para o imaginário da região onde caiu, para a crença popular nordestina, o meteorito teria sido uma pedra que desceu do céu para proteger o sertanejo e um prenúncio da vinda de Antonio Conselheiro (entre outros significados).
Outra curiosidade sobre o Bendengó é que dele veio um dos embriões do grupo 14 Bis, o tecladista Vermelho e o baterista Hely, que se juntariam aos ex-integrantes do Terço, Magrão (baixo) e Flávio Venturini (teclados) e ao guitarrista Cláudio Venturini, para formar um dos grupos de maior sucesso da virada dos anos 70 para 80.
Mas voltando ao Bendegó (a banda, não o meteorito), em 1973, o grupo lançou seu primeiro disco, pela Fontana/Philips com o título de “Bendegó”, que trazia em seu repertório: “Chorada”, “Desaguou”, “Princesa sertaneja”, “Bendegó”, “Abrolhos”, “O gole”, “Algazarra de padre”, “Bala de ouro”, “Rio doloso”, “Bonde”, e “Zesse feche Zesse”, todas da dupla Patinhas e Gereba, além de “Caratacá”, de Gereba.
 
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Em 1975, o grupo atuaria como banda de apoio no LP “Jóia”, de Caetano Veloso (um dos principais álbuns de sua fase mais experimental após a volta do exílio) na faixa “Canto do povo de um lugar”:
 
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Já em 1976, o grupo grava pela Continental, o álbum “Onde o olhar não mira”. No repertório, trazia as canções “Onde o olhar não mira”, de Vermelho, Kapenga, Zeca e Patinhas, “Obrigado bandida”, de Patinhas, “Olhos de fogo”, de Zeca, Kapenga e Patinhas, “Você e tu”, de Gereba e Tuzé de Abreu, “Tierra llena del sol y de luna”, de Kapenga, Zeca, Gereba e Patinhas, “O coco louco”, de Kapenga e Carlos Eládio, “Palhas de milho”, de Kapenga, Vermelho e Patinhas, “O arco-íris trovejou”, de Kapenga e Patinhas, e “As muié santa de Canudos”, “Além de Arembepe”, “Dom Tapanatara”, e “Chamego do Vicente”, todas de Gereba e Patinhas.
 
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Em 1977, o Bendegó integra a coletânea “Norte forte”, também da gravadora Continental, que trazia um apanhado significativo da força musical vinda do norte/nordeste do país nesse período, incluindo nomes como Belchior, Ednardo, Haréton Salvanini, Marcus Vinicius, Fagner, Banda de Pífanos de Caruaru, Tom Zé, João Só, Édson e Aloísio, Tetty, e Orquestra Armorial. Ainda nesse ano, o grupo participou de outra coletânea da gravadora o LP “O som de Status” (referência à revista de mesmo nome), com a faixa “Além de Arembepe”. No elenco, outro time que mostra o vigor criativo da MPB dos anos 70: Edu Lobo, Os Novos Baianos, Conjunto Aquarius, Almôndegas, Sergio Sampaio, Ney Matogrosso, Paulo Chaves, Célia, Fagner, Os Três Morais, e Walter Franco.
 
norte forte
 
 
Retomando sua discografia individual, em 1979, já contratados pela Epic/CBS, o grupo lança o LP “Bendegó”, com participações especiais do violeiro Passoca e da cantora Marlui Miranda na faixa “Seguraí”, de Gereba, Kapenga e Patinhas. O repertorio apresentava ainda as faixas “Ficou bêbado” e “Celacanto e Lerfa-um”, ambas de Kapenga, Gereba e Patinhas, “Piriquitamba”, de Gereba e Tuzé de Abreu, “Pé de vento”, de Gereba, Kapenga e Tuzé de Abreu, “Dança do punhal”, de Kapenga e Patinhas, “Pajarito” e “Recuo tático (General inverno)”, ambas de Kapenga, “Bom dia violão”, de Gereba, “Nem Freud pode”, “Paciência Tereza”, de Gereba e Patinhas, e “Danças dos Ni”, de Gereba e Kapenga. Entre os destaques do disco está refinada ironia e irreverência de “Nem Freud pode”, de Patinhas e Gereba:
 
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Dois anos depois, o grupo voltou a gravar na Continental e lançou o LP “Bendegó”, contendo as músicas “Em Nazaré das Farinhas (Topo tudo a todo tempo)”, “Coração alheio” e “De mim que fui de mim que sou”, de Gereba e Patinhas, “Sem medo (Asa é risco)”, de Kapenga e Carlos Pita, “Do I Ching ao Xingú”, de Kapenga, Moraes Moreira e Antônio Risério, “Banco de Areia”, de Kapenga, João Bá, Gereba e Vidal França, “Os índios e os passarinhos”, de Kapenga, Gereba e Patinhas, “Rancheira”, de Gereba e Tuzé de Abreu, “Um sinal de amor e de perigo”, de Kapenga e Patinhas, “Tempo forte”, de Kapenga e João Bá, “De flor em flor”, de Gereba, Patinhas e Antônio Risério, e “Lovely Beatles”, de Kapenga e Tuzé de Abreu.
 
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No mesmo ano o grupo participou, juntamente com Jorge Mello, Vicente Barreto, Téo Azevedo, Gê Maria, Arthur Moreira Lima, Almir Sater, e Rolando Boldrin, do show comemorativo dos dez anos do espaço cultural “Paço das Artes”, em São Paulo registrado e lançado num LP ao vivo também pela Continental.
Em 1986, o Bendegó lançou o LP “LA nave va”, pela gravadora 3M, já sem a presença de Patinhas como compositor e no mesmo ano o grupo se dissolveria, com seus integrantes partindo para carreiras solo e com um retorno temporário quatro anos depois no LP “Forró bom! – É do ABC!!!”, da gravadora Musicolor/Continental, que contou com as participações de Anastácia e César do Acordeom.
Daí pra frente, enquanto os músicos do Bendengó iam enfrentando as consequências de um mercado musical que progressivamente se fechava e se voltava para gêneros formatados para consumo fácil e descartável, em paralelo, Patinhas ia desenvolvendo uma das trajetórias mais bem sucedidas do marketing político brasileiro. Ironicamente, enquanto o marketing passava a ditar as regras da indústria fonográfica e do mercado musical, nomes como Zé Rodrix, Tavito, Santana, entre outros, iam engrossando as fileiras da publicidade e do marketing e encontrando ali, formas mais consistentes de sustento. Vale frisar que não há nesse comentário nenhuma intenção moralizante, apenas uma constatação.
Como jornalista, Santana atuou no Jornal da Bahia, foi chefe da sucursal de O Globo, foi repórter na revista Veja , no Jornal do Brasil (em Brasília) e na Isto É, para a qual entrevistou o motorista Eriberto França, depoimento que ajudou derrubar o então presidente Fernando Collor de Mello, em 1992, recebendo o prêmio Esso pela entrevista.
O talento que legou ao Bendengó algumas de sua melhores letras, se revelaria mais fértil ainda para o marketing político, fazendo com que Santana fosse considerado por muitos, um gênio nessa área. Na sequencia, ajudaria a erguer e manter presidentes no poder, dirigindo as campanhas de Lula e Dilma no Brasil, de Hugo Chávez na Venezuela, de Mauricio Funes em El Salvador, de Danilo Medina na República Dominicana e de José Eduardo dos Santos em Angola. Chegou a ser apontado entre os 60 homens mais poderosos do Brasil e como “o mais importante ministro da presidente Dilma”. Pode ser que alguns queiram encontrar premonições ou provas para esse ou aquele fato político nas entrelinhas dos versos escritos pelo jovem Patinhas para as canções do grupo baiano, ou nas crenças populares sobre os significados do meteorito bendegó. Como nosso assunto é música, ficamos por aqui. boa audição a todos e todas!

 
 

Sobre o meteorito:
 
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