Fluminense FM: rebelião nas ondas do rádio e a permanência do mito da Maldita.

A Rádio Fluminense FM (carinhosamente conhecida como “Maldita”), tem sido objeto de um surpreendente esforço de resgate de memória. Surpreendente quando se pensa no modelo de rádio predominante hoje, baseado na superficialidade e no sucesso descartável e cujo descompromisso um possível papel cultural do veículo, dificilmente deixará marcas profundas na memória coletiva. Porém, tal resgate é mais que compreensível quando se trata de uma rádio que rompeu com todos os modelos e revolucionou o dial de uma forma que ainda hoje, mais de 30 anos depois, parece inacreditável.
Dentro desse resgate, ano passado, uma exposição recuperou o acervo fotográfico referente ao seu período áureo, que também se transformou no primeiro livro oficial da rádio: “Maldita 3.0”, reunindo fotografias e outras raridades. O livro, infelizmente, tem tiragem limitada sendo disponibilizado somente para acervos públicos (como bibliotecas, arquivo nacional e algumas produtoras), mas já representou um passo significativo para o resgate da memória de uma fase crucial do rock brasileiro.
Outras ações, publicações e eventos antecederam esse resgate, como “A Onda Maldita, Como nasceu a Fluminense FM”, de Luiz Antônio Mello (um de seus fundadores) e “Rádio Fluminense FM – A porta de entrada do rock brasileiro nos anos 80” de Maria Estrella e a exposição, “Maldita 3.0 – Um passeio no universo da Rádio Fluminense”, com objetos, relíquias e fotos, em 2015. Entre as ambições do projeto “Maldita 3.0”, a volta da “Maldita” para o dial, se fosse efetivada nos exatos moldes em que ela foi criada no início da década de 80, ainda colocaria a Fluminense num patamar de vanguarda em relação a tudo que temos hoje no ramo, e em condição de tirar muita gente da frente do computador. Exagero de fã saudosista? Pode ser. Mas tenho certeza de que não sou o único.

 

Uma das bandas iniciantes que se destacaram com fitas demo na programação da rádio antes de chegar ao primeiro LP.
Uma das bandas iniciantes que se destacaram com fitas demo na programação da rádio antes de chegar ao primeiro LP.

Em paralelo a isso o trabalho voluntário de fãs/pesquisadores da Maldita(como trabalho do compositor, escritor e pesquisador Rodrigo Moreira Gomes, que lança periodicamente o resultado desse resgate na rede, montando uma programação de fim de semana para os saudosos ouvintes), vem promovendo o resgate de fragmentos de transmissões de época, músicas só divulgadas em versões demo, vinhetas e trechos de locuções. O resultado, no mínimo emocionante, para os fãs, permite às novas gerações ter uma rara experiência do que foi o papel histórico da Maldita. Vale torcer para que esse tipo de resgate ajude pelo menos a lembrar de que outros modelos de rádio são possíveis e que podem inclusive ter audiência, além de um papel cultural fundamental.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=pO-OLNRA8jk&w=560&h=315]

Tal permanência da memória sobre a rádio pode parecer algo surpreendente e até sem sentido, quando se pensa no papel efêmero, descartável e superficial desempenhado pela maioria das Rádios FM em ação hoje. A sensação é de que o papel desempenhado pelo Rádio se tornou tão frágil como a propagação física do som por ele emitido. Segundos após sua emissão mais nada resta de sua ação. Então o que faz com que décadas depois, as fugidias emissões de uma rádio possam ainda ter significado cultural e afetivo para toda uma geração e merecer tal resgate? Talvez o poder transformador que toda verdadeira atuação cultural e artística sempre teve sobre a humanidade. A experiência da Rádio Fluminense FM (Niterói) foi um desses momentos em que o Rádio se tornou arte (no sentido transformador dessa atividade) e ação político-cultural (no sentido também transformador da cultura).
Fundamental para compreender o significado da rádio é a audição dessa transmissão inaugural, feita em 1º de março de 1982 e que trazia já uma carta de intenções sobre o papel revolucionário que a rádio se propunha a desempenhar, e que cumpriu. O tom de saudável audácia é digno dos melhores manifestos de vanguardas artísticas. A Maldita, no ar:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=98KzcSUYVaU&w=420&h=315]

Segue aí uma mostra das principais vinhetas da rádio e seus significados e funções e de brinde uma canção da banda progressiva Bacamarte, frequentadora assídua da programação da rádio:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=95a0jUXAJ48&w=420&h=315]

Em 1982, morando num alto de morro da então (e ainda) provinciana cidade de Juiz de Fora, um moleque de 16 anos, munido de um aparelho de Rádio ainda à pilha, tentando achar alguma coisa que prestasse entre a mesmice que já começava a gradativamente padronizar as FMs, esbarra em uma transmissão irregular (ora estéreo, ora mono), de uma sequência de músicas que fizeram com que ele optasse por superar a precariedade técnica em favor do conteúdo. Não dava para acreditar! Talvez fosse algo como Sá, Rodrix e Guarabira, seguido de Led Zeppelin e Genesis, só para exemplificar como deve ter sido essa primeira sequência captada ao acaso (já que parte da memória daquele moleque se perdeu no pó da estrada). Parecia um milagre… E era! Tratava-se da Rádio Fluminense FM (Maldita) em suas primeiras transmissões experimentais ainda, mas já anunciando que seus planos eram muito bons.
O moleque, que até então tivera acesso (à conta gotas) a pouquíssima audição de rock e lia revistas como quem sorvia a umidade relativa do ar num deserto, pra matar a sede de informação, se deparou com um dilúvio (lembrem-se crianças, não havia Internet). O ano de 1982 foi uma inundação de rock’n’roll e outras bossas (já que rock para a maldita parecia ser toda música que tivesse demonstrado ousadia o bastante para dar um chute na mesmice em qualquer época e lugar). Anos mais tarde fui descobrindo relatos de contemporâneos que iam para determinados pontos altos da cidade, ou para a BR, sintonizar a Maldita e turbinar a cabeça de rock e outros aditivos.
Foi um curto circuito total (em meio às tradicionais descobertas da adolescência, dores de cotovelo, porres e afins) e claro, agravando as dificuldades para as aulas de química e matemática, mas estimulando pesquisas na biblioteca do colégio sobre vanguardas europeias (com ênfase no surrealismo), Herman Hesse, Tropicalismo, Krishnamurti, e claro… Rock. Lógico que o moleque foi reprovado em química, matemática e mais alguma disciplina (que se perdeu na memória) e no ano seguinte descobriria no punk uma porta de entrada para o “faça você mesmo”. De alguma forma, a vida começava ali…
Pra quem não conhece essa história, a Rádio Fluminense FM (Maldita), foi uma das rádios mais importantes principalmente para o rock produzido no Brasil. Com uma concepção ampla de rock enquanto música, atitude e transgressão. Veiculava em seus horários de pico de Sex Pistols, Led Zeppelin, Yes, Joy Division, AC/DC, The Cure, Siouxie and the Banshees, à Egberto Gismonti, Arrigo Barnabé, Rumo, Itamar Assumpção, Beto Guedes, Língua de Trapo, Walter Franco, Premeditando o Breque e Sérgio Sampaio – ampliou ao infinito o leque de referências de quem a conheceu.
Além disso, acolhia em suas ondas, fitas demo e vinis independentes de artistas e bandas que ainda não tinham gravadoras, lançando nomes como Celso Blues Boy, Sangue da Cidade, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Plebe Rude, Ira!, Picassos Falsos, só para citar uma pequena parte dos artistas lançados pela rádio (vale lembrar que a juizforana Patrulha 66 chegou a ser uma das bandas de destaque na programação, já nos anos 90). A Fluminense também se destacava pelo que ela não deixava de tocar, pois enquanto outras propostas alternativas tenderiam a excluir (por um certo esnobismo) os artistas que se consagrassem, a rádio executava também os bem sucedidos que tinham  o perfil de sua progreamação. A regra, porém, era subverter a ditadura da “música de trabalho” escolhida pela gravadora, revelando faixas desprezadas pelas rádios comerciais e apostando nas faixas “lado B”.

 

O blues e o rock clássico de artistas como Serguei e Celso Blues Boy também tinha espaço garantido na programação.
O blues e o rock clássico de artistas como Serguei e Celso Blues Boy também tinha espaço garantido na programação.

 

Inovou ainda, ao optar pelo predomínio das vozes femininas na locução, o que não era comum numa época ainda marcada pelo preconceito e pelo machismo que além de reduzir o mercado para as mulheres, estigmatizava as que se aventuravam no ramo. Completava seu trabalho exemplar, uma série de programas semanais temáticos que abarcavam diferentes tendências do rock e afins. De pirar a cabeça de um moleque que tinha 16 anos quando ela entrou no ar em 1982. Fundamental, direta ou indiretamente para boa parte da minha geração, a Fluminense foi responsável por parte significativa da minha formação como ouvinte. Fica aqui meu agradecimento e o comentário de que todo resgate dessa memória é fundamental para história do rock no Brasil. E para “você que sofre de insônia, fica na companhia dos chiados dos transmissores”:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=OJBRvqcKfxg&w=854&h=480]

 

Guitarrista do Genesis visita a rádio e discos voadores saltam do mar
Entre as muitas histórias que envolvem a Maldita uma, recontada por um de seus fundadores, Luiz Antônio Mello (embora ele diga não gostar do assunto) é bastante curiosa. Diz respeito à visita histórica e não muito programada do ex-guitarrista do Genesis, Steve Hackett, aos estúdios da rádio. Vale lembrar que o lendário guitarrista era grande admirador do trabalho da rádio e chegou a manifestar algumas vezes que a Maldita era a única emissora de Rock autêntico do mundo.
A visita rendeu uma entrevista (que não pôde ser registrada por falta de fita) e a execução ao vivo de algumas músicas do artista, que entraram para a programação da rádio (até que a falta de cartuchos para publicidade fez com que o áudio exclusivo fosse apagado). A visita terminou com um passeio turístico pelo litoral da região, como recorda Mello em um texto para seu blog:
(…)“Depois da entrevista que acabou umas três da tarde, convidamos Steve Hackett para ir até a praia de Itaipu. Selma Boiron continuava dando a maior força na tradução simultânea e foi conosco. (…)
Chegamos a Itaipu, uma das praias mais bonitas do mundo. Segundo o naturalista Augusto Ruschi me disse em 1980, é uma das poucas praias onde o sol se põe no meio do horizonte. E foi numa tarde dessas que ficamos batendo papo sobre música com Steve Hackett, algo como conversar sobre Bossa Nova com João Gilberto em Itapuã, na Bahia.

Estávamos, eu, Lacombe, Hilário Alencar, Alvaro Luiz Fernandes, Selma Boiron, Steve e a mulher. Quando anoiteceu, o músico quis dar uma caminhada pela aldeia de pescadores.(…)
Eram umas oito e pouco da noite, céu estreladíssimo de inverno, quando deixamos o bar rumo aos carros. Steve ainda foi dar uma olhada numa muralha do século 17, que cerca o Museu de Arqueologia que existe lá e, infelizmente, quase ninguém conhece.

Enquanto Steve contemplava a muralha, eu e Lacombe fazíamos xixi nas proximidades. De repente, para assombro geral, começam a subir gigantescas bolas vermelhas de dentro do mar. Eram centenas, milhares talvez. As bolas tinham tamanhos de ônibus e rumavam no mais absoluto silêncio para o céu. Ficamos meio paralisados. Steve chegou a dizer: “Discos voadores.” O fenômeno durou uns três minutos, mais ou menos.

Como não acreditava – como ainda não acredito – em discos voadores, achei que aquilo ali deveria ser algum tipo de… de… sei lá. Francamente. Fiquei preocupado com a exploração que poderia rolar em cima. Afinal, como disse anteriormente, a Fluminense era considerada um viveiro de doidões. Imagine o que não iria rolar de folclore em cima da notícia de que o ex-Genesis Steve Hackett – também com fama de doidão, apesar de só gostar de café bem quente com camarão frito – e o pessoal da Maldita tinham visto uma esquadrilha de discos voadores. Ficou por aí mesmo essa história.

Na manhã seguinte o jornal O Fluminense publicou uma nota curta sobre os tais discos voadores. Outras pessoas os tinham visto na Região Oceânica de Niterói e logo ligaram para a redação. Eu, mais com o objetivo de queimar as ilusões, telefonei para o saudoso médico e ufólogo Sylvio Lago, um senhor que estava entre as figuras mais respeitadas mundialmente em se tratando de Objetos Voadores Não Identificados. Perguntei a ele se havia como provar se era uma ilusão de ótica coletiva ou ao. Dr. Sylvio explicou que só através da hipnose poderia checar. Isso significava que todos nós teríamos que nos submeter ao exame. Preferi descartar o negócio.

 

Lendário guitarrista do Genesis, ao vivo nos estúdios da Maldita.
Lendário guitarrista do Genesis, ao vivo nos estúdios da Maldita.

 

Não acredito em OVNIs porque acho que as civilizações superiores devem dispor de meios de transportes menos primitivos, como deslocadores de matéria ou a própria engenharia genética. Mas isso é outro assunto, provavelmente, para outro livro que jamais escreverei. Acho que só devemos escrever sobre coisas em que acreditamos. E disco voador, meu amigo, francamente…
Nota do autor: Várias pessoas me perguntaram na época o que eu tinha achado dos discos voadores e eu desdenhei. Dizia que devia ser sinalização de barco, apesar de no íntimo nunca ter engolido essa história direito. Três minutos de bola acesa subindo, em velocidade astronômica, é tempo demais, do tamanho de uma música. O Tchan no Egito tinha 2m45seg.

Consegui manter o assunto relativamente na moita até abrir o Segundo Caderno do Globo numa edição de 1998, quando Steve Hackett estava no Rio. Na capa do Segundo Caderno, uma enorme entrevista com ele e um subtítulo em letras garrafais dizia: “O fato mais impressionante da minha vida foram os discos voadores que vi com Luiz Antonio Mello na Praia de Itaipu, em Niterói.”

Fui sacaneado em todas as rádios do Brasil e pelo telefone cansei de espinafrar disco voador. Os ouvintes entravam no ar me sacaneando, e para culminar, fui chamado para um programa de televisão para falar desta minha experiência. Não fui e ao atender o telefone falei que eu não era eu, era meu irmão, e que eu estava viajando. Aproveito esta oportunidade para implorar: nunca mais toquem neste assunto comigo.”
(Fonte: http://colunadolam.blogspot.com.br/2015/08/alo-aqui-e-steve-hackett-ao-vivo-na.html)

 

Eventos promovidos pela rádio eram verdadeiras mostras da evervescência do rock oitentista.
Eventos promovidos pela rádio eram verdadeiras mostras da evervescência do rock oitentista.

 

Fita demo da Legião Urbana veículada pela Fluminense

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=_wUm_pImuNE&w=560&h=315]

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