MC Biel, o inseticídio de uma pseudocarreira

O anúncio da interrupção da “carreira” musical de MC Biel, na última quarta, 3/8, bombou nas redes sociais, e teve gente dizendo que foi culpa da intensa movimentação no Twitter após a divulgação de declarações de cunho ofensivo feitas pelo próprio cantor entre 2011 e 2012. Será que foi mesmo culpa da galera do Twitter?

Vamos aos fatos. Biel (ou Gabriel Araújo Marins Rodrigues, para os íntimos) faz parte do amplo espectro de subcelebridades criadas com a única intenção de serem enfiados goela abaixo como “artistas”. Tentando trilhar o mesmo caminho de gente com algum talento que se deu bem a partir das redes sociais, teve sua imagem massivamente lapidada para se tornar um Justin Bieber tupiniquim, mas desde cedo ficou claro que faltaram dois grandes fatores nessa empreitada Dance Mom rumo a algum sucessinho que fosse: trabalho e traquejo.

O sujeito não canta, não compõe, não se destaca em absolutamente nada artisticamente. Exceto pelas sobrancelhas, milimetricamente desenhadas, com uma simetria vitruviana. Mas nem isso é mérito do menino Gabriel, trata-se de obra de autoria desconhecida. Quanto às suas músicas, quem conhece? Insípido, Biel nunca conseguiu fazer com que suas músicas ultrapassassem os limites do jabaculê. Outras gralhas de sua geração conseguiram tal transposição, num fenômeno já manjado que funciona da seguinte forma: eu vou pagar pelo meu espaço na TV aberta de sábado à tarde ATÉ VOCÊ GOSTAR DE MIM. Desculpa o choque de realidade garoto, mas ninguém gostou, e fora do alcance dos braços do paitrocínio seu som não colou. Eu, particularmente, não consigo me lembrar de UM mísero carro rebaixado tocando seu funk.

Quanto às suas habilidades de se relacionar com outros serumaninhos, aí sim o menino Gabriel se superou na nobre arte de errar. Sua conta no Twitter, bloqueada às pressas por sua assessoria de comunicação, parecia ser administrada pelo Donald Trump. Dá só uma olhada:

Aprendeu direitinho hein garoto!
Aprendeu direitinho hein garoto!

O pessoal do RP tentou amenizar, o paitrocinador intercedeu, disse que era coisa de moleque, que adolescente brinca mesmo etc e tal. Como se isso tudo fosse coisa pra se brincar. E a pilha de panos quentes desmoronou em Junho de 2016, a partir da agora famosa denúncia da jornalista de 21 anos a quem Biel dava uma entrevista. Nós não tivemos acesso ao conteúdo que foi encaminhado para as investigações, mas se alguém da tarimba de Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres no Brasil (que obteve acesso ao material), descreveu como “palavras de baixo calão e de conotação sexual estando em posição superior ou de poder comprovam o assédio sexual”, precisa de mais?

Biel precisava de mais. 4 dias depois, se envolveu num acidente quando fez uma manobra irregular com seu carro em Lorena-SP, onde reside, e derrubou uma motociclista. De acordo com a Polícia Civil, o rapaz se evadiu sem prestar socorro à moça. Agora sim, não é possível que a ficha corrida aumenta.

Aumentou. Em um vídeo publicado pelo próprio Gabrielzinho no Snapchat, em 11 de Julho, ele acelera seu Porsche (avaliado em 400 mil dinheiros) até 121 km/h na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. É isso mesmo que você está lendo. Dirigindo a 121 km/h. Dentro de uma cidade que não tem NENHUMA via com velocidade permitida acima de 80 km/h. USANDO O CELULAR. Às 3:30 da manhã. De uma SEGUNDA FEIRA (olha aí no seu calendário). Tá sertinho, pode passar no RH e pegar seu troféu, campeão.

Dentro de sua cabecinha Bieberiana, o menino “funk-sedução” (o que quer que isso signifique) se considerava impune, mas a casa caiu com força. Está todo encalacrado com a Justiça. Ia dar uma pegadinha na Tocha Olímpica em Fortaleza-CE, mas foi cortado pelo Comitê dos Jogos. Viu todo o jabá descer pelo ralo ao virar persona non grata nas principais emissoras de TV do país. Seu contrato com a Warner, assinado em 2015, já virou fumaça. E se, ao final das investigações, for julgado culpado de assédio sexual, ainda corre o risco de ficar um tempinho guardado. Sem cela especial, já que seu curso superior de Administração não ultrapassou o 1° período, em 2014. É Biel, desandou o caldo.

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O texto tem humor, mas o assunto é sério. Ao analisar a trajetória de Biel, não se deve atribuir a ele o discurso apaziguador da “estrela problemática” ou considerar que “o poder lhe subiu à cabeça”. Estrela não, já que não teve tempo, muito menos talento, para apresentar algum material que o consagrasse. Foi somente mais uma marionete do show business brasileiro que, na última década, se apropriou do funk da periferia como equivalente verde-amarelo dos artistas pop descartáveis norte-americanos. As gravadoras desistiram de produzir boy bands nacionais para investir em modelos Fordistas de tchun tchá. Todo mundo igual, ninguém relevante.

Quanto à questão do poder lhe subir à cabeça, é uma afirmação ainda mais perigosa. Sua postura não foi simplesmente irresponsável, foi criminosa. E seu afastamento da grande mídia não deve ser comemorado como uma vitória, como alguém que influenciava negativamente os jovens e teve seu discurso tirado de circulação. Foi meramente a bem vinda consequência de sua verborragia inconsequente. O perigo reside no fato de Biel não ser um formador de opinião, mas um simples reflexo de uma sociedade que ainda não se curou do vício de odiar o próximo sem medo de punição.

Notinha final: Eu sempre procurei escrever sobre coisa boa. Música boa, notícias boas, pois creio que falta MESMO conteúdo positivo na internet. Dessa vez não teve jeito, então, peço desculpas por pesar o clima, mas era um texto, a meu ver, necessário. Mas dias melhores virão, depende do que a gente sopra por aí. Até logo. Paz. 

 

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