Belchior: 70 anos de genialidade e chá de sumiço

 
 
 

“Se você tiver um parente cadastrado neste site, queira, por favor, atualizar as informações caso haja novidades ou tenha sido localizado.” O paradeiro de Antonio Carlos continua a ser um enigma. “Se você tiver alguma nova informação sobre algum caso registrado no site, favor entrar em contato.” Antonio Carlos Gomes, comemora nesse dia 26 de outubro, 70 anos. Nascido em Sobral (Ceará), Antonio, continua desaparecido, mas seus 70 anos merecem ser comemorados por todo o país.
Sem muito a acrescentar sobre seu atual destino, podemos lembrar, no entanto, que durante sua infância esse senhor foi cantador de feira e repentista. Sabe-se também que seu pai tocava flauta e saxofone e sua mãe cantava no coro da Igreja. Haja, ou não alguma relação de causa e consequência entre os fatos, sabe-se também que Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes tornou-se seminarista e estudou filosofia e humanidades (provavelmente nesse ponto algum defensor da escola sem partido, estará relacionando esse fato ao misterioso desaparecimento do artista enquanto jovem então sexagenário, ocorrido há alguns anos).
A família de Antônio Carlos também tinha tios boêmios e poetas, não sabemos novamente se há relação entre os fatos, mas o certo é que, um dia Antônio Carlos abandonou o seminário para se tornar estudante de medicina, e por fim, abandonou também esse curso, para se tornar apenas um rapaz latino americano chamado Belchior, um dos mais respeitados compositores da MPB e do nascente pop de raízes roqueiras, nos anos 70 de um improvável país chamado Brasil.
Outro fato a ser destacado é que um dos álbuns centrais de sua obra, também tem uma data redonda a ser comemorada em 2016: 40 anos de influência sobre sucessivas gerações de músicos e ouvintes. Um LP, chamado “Alucinação”, criado por um artista que dizia não estar interessado em “nenhuma tioria”, e a quem, “mudar o mundo” interessava muito mais. Para alguns, o título do álbum e suas estranhas ideias também trazem pistas sobre o atual desaparecimento do artista.

 
 
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O mundo e o país não mudaram muito, e ao contrário, tentam recuar e voltar a viver como os pais dos pais de Belchior, exatamente agora que um de seus mestres, Mr. Dylan, recebeu recentemente o prêmio Nobel de literatura. A relação entre Belchior e o excêntrico Dylan (que até poucos dias antes desse texto ser parido, não havia sido localizado pelo povo do Nobel) para alguns, parece apontar para ligações entre o desaparecimento de Antonio Carlos e algum tipo de organização internacional de insatisfeitos que deveriam todos “ir para Cuba”.
Mas Antonio Carlos foi também um garoto que amava os Beatles e o já citado Bob Dylan, influências que incorporou de maneira bastante pessoal à sua MPB, que apresentou ao mercado no início da década de 70 do longínquo século XX, junto com uma leva de talentosos nordestinos (entre eles, alguns cearenses também, como Fagner, Ednardo, Rodger e Teti) que ajudaram a revitalizar e arejar a música brasileira em plena ditadura.
 
 
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Um dos grandes compositores da geração que despontou para o sucesso nos anos 70, Belchior foi um dos principais poetas da temática jovem contracultural no Brasil. Retratou sem meias palavras, mas com muita poesia, o sentimento sombrio do fim do sonho num país que viveu o auge dos seus experimentos contraculturais, em pleno autoritarismo de uma ditatura civil-militar cujos danos para o país (e principalmente para os que viveram sua juventude no período) estão longe de poder ser relativizados, como algumas pessoas propõem. Uma realidade sufocante, que sob a lente de sua poética afiada, resultou em páginas cáusticas que se situavam entre a rebelião existencial/comportamental e o pessimismo, embora sem perder o apelo à transformação social (“amar e mudar o mundo me interessa muito mais).
Antenado com as transformações da cultura brasileira, na virada dos 70 para 80, Belchior produziu o primeiro álbum da vanguardista e inusitada Banda Performática, do artista plástico e multimídia Aguillar. O disco apresentava também dois dos futuros Titãs ao mercado fonográfico. De quebra, Belchior colheu para o seu repertório uma composição de um dos futuros principais criadores da geração do rock 80, Arnaldo Antunes, tendo sido provavelmente o primeiro a gravar o genial poeta multi-mídia.
 
 
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E falando em Aguillar, foi ele que, em entrevista a revista Época, no período de maior estardalhaço midiático sobre o desaparecimento de Belchior e de sua companheira, quem lançou um comentário-pista bastante plausível: “São dois sonhadores, juntaram suas utopias. Deixaram de acreditar neste mundo materialista, objetivo e mesquinho e partiram para um caminho de desapego”. Verdade ou não, nada mais compatível com o ideário traçado pelas canções do jovem Antônio Carlos, o que permite um paralelo com o velho Tolstói retratado por Mário Quinta no momento em que o escritor russo foge de casa e vai morrer na “Gare do Astapovo”: “(…)Ele fugiu de casa…/Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…/Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!”.  Com o seu desaparecimento a imagem do artista se fortaleceu junto ao público jovem se consolidando como um ícone da rebeldia, sem que ele, no entanto, fizesse nenhum esforço para capitalizar isso em benefício próprio.

 
 

Elevado a categoria de ícone rebelde após desaparecimento, Belchior virou tema até de pichação em recentes protestos.
Elevado a categoria de ícone rebelde após desaparecimento, Belchior virou tema até de pichação em recentes protestos.

 
 

Sabemos que segundo o que se conta, muita gente tem motivos para não estar muito satisfeita com o artista, que sumiu deixando pensões alimentícias por pagar, e diversas outras contas pendentes – problemas financeiros esses, que segundo pessoas próximas ao artista, não explicam o desaparecimento, já que com uma série de shows pelo país, talvez resolvesse facilmente as questões materiais. Mas se pensamos no conjunto de canções que o artista deixou para a cultura brasileira antes de resolver por o pé na estrada, o Brasil tem muito a comemorar e muitas homenagens a prestar.
Bom… o certo é que Belchior permanece desaparecido. O Brasil por sua vez, permanece o país da desesperança, como o que cantou o jovem Antonio Carlos nos idos dos 70 em muitas de suas canções. Permanece um país que faz muito pouco por suas tradições culturais e que dificilmente entenderia o papel de cancionistas como Belchior, a ponto de prestar-lhe uma homenagem que correspondesse ao reconhecimento que seu colega de pena, Bob Dylan recebeu em nível internacional. Se a consistência de sua obra já era incontestável, as contingências históricas contribuíram para torná-la novamente atual e urgente. Enfim… como disse o irreverente grupo Língua de Trapo, numa canção dos anos 80: “ainda somos os mesmos e vivemos como Belchior”… Mas em meio a tantas interrogações sobre o paradeiro de Belchior, fica uma pergunta para as próximas edições: Que fim levou o Lobão?…
 
 
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