1986-2016: 30 anos depois – dinamitando um paiol de bobagens

 
 
 
 
 
Mais um ano desta nossa década de identidade confusa e caótica se vai, e como os anteriores, repleto das inevitáveis listas de discos clássicos lançados há 3,4, décadas atrás e que fizeram aniversário de data redonda. Pelo boom mercadológico que a década de 80 representou para o rock nacional, é natural que tenham surgido dezenas de textos sobre o ano de 1986, mas fica a pergunta: Trata-se esse ano só de só mais um marco arbitrário, para render assunto, relançamentos e afins? Apenas mais um marco de vendagens, ou tem algo mesmo a ser revisto em relação aos sons que fizeram a cabeça da juventude brasileira nesse ano que ainda possa fazer algum sentido 30 anos depois?
É notório que são sempre questionáveis os marcos dessa natureza, até porque, não dá para fugir ao fato de que marcos culturais escondem parte da dinâmica do setor, que se dá por processos, transições e não por saltos. O que chegou ao mercado em 1986, por exemplo, foi resultado de um longo processo (basta lembrar que Legião e Capital Inicial vieram do Aborto Elétrico surgido em 1978), e terá desdobramentos que se expandem para os próximos anos. No entanto, o significado da chegada dessa série de álbuns ao mainstream do pop nacional, parece realmente um marco, tanto mercadológico, quanto estético, e não só por esses álbuns e bandas, mas por terem revelado ser apenas a ponta do iceberg de uma rica e multifacetada cena underground que se desenvolvia pelos mais diversos cantos do país.
 
 
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É inegável que o contexto político teve influência fundamental para o rock pós-86. Por um lado, a euforia consumista temporária propiciada pelo famigerado Plano Cruzado, do governo Sarney contribuiu para a expansão mercadológica e, em certo sentido, até estética, já que as gravadoras passaram a se arriscar em lançamentos mais ousados em função das vendagens elevadas de bandas com propostas, para a época, mais radicais.
No entanto esse foi um período também de descrença em relação ao processo de redemocratização. Sarney era – como bem definiram o letrista Bernardo Vilhena e o músico Lobão, em “O Eleito”- um primeiro presidente civil a tomar posse pós-ditadura militar “sem nenhuma eleição por perto”. Sua chegada ao poder resultara de uma eleição indireta, em que fora escolhido Tancredo Neves, que, acometido de um inesperado mal, faleceu antes mesmo da posse. O político do PMDB que assumia o comando por ser o vice de Tancredo, estava, portanto, longe de representar os anseios democráticos da juventude que escrevia versos do tipo “vocês vão ver/ suas crianças derrubando reis/ fazer comédia no cinema com as suas leis” (Legião).
 
 
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Fosse através do niilismo anárquico derivado do punk e do pós-punk, de bandas como Titãs, Legião, Plebe Rude, Mercenárias e Inocentes, da poética “blues-emepebista” de um Cazuza, ou pela corrosiva metralhadora giratória e politicamente incorreta do Camisa de Vênus, ou mesmo através dos comentários críticos presentes em muitas letras do meteórico sucesso pop do RPM (originalmente uma banda progressiva), um discurso mais crítico e político, assim como uma maior elaboração poética, passaram a dar a tônica da nova cena que tem como marco o ano de 1986. A irreverência juvenil hedonista e por vezes nonsense do pop e rock oitentista da primeira metade da década parecia subitamente obsoleta. Por mais saborosa que fosse a fase que teve como ícone o estouro da Blitz, parecia que a porção de batatas fritas tinha esfriado, e o chope já havia esquentado. A o público jovem queria mais.
 
 
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Invasão underground

 
Um aspecto a ser destacado é que as bandas que despontavam agora no mainstream, haviam passado em sua grande maioria, por um processo de militância pelo underground de casas noturnas alternativas (embora, em geral, de um cenário mais elitizado, diferente, da cena proletária punk), o que dava a elas uma representatividade maior junto a uma parte mais exigente da juventude, ao mesmo tempo em que acenavam com a possibilidade de uma “tomada de poder” dentro da indústria musical, a ideia de que o rock alternativo poderia ocupar a cena nacional e de que outras bandas originadas do underground poderiam ter seu espaço.
 
 
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Já para a parcela da juventude que não estava engajada em subculturas, tratava-se de um momento riquíssimo no qual, subitamente, temáticas críticas e instigantes tomaram conta dos meios de comunicação de massa, produzindo verdadeiros hinos que expressavam a indignação jovem contra as instituições como o estado, a igreja, a família, a polícia e os próprios meios de comunicação. Tudo isso, com uma exposição midiática que hoje só seria comparável a que é dirigida a gêneros populares como o sertanejo universitário.
Caso não bastassem todos esses pontos, trata-se de um momento em que o rock nacional começa a desenvolver também um sentido autocrítico que apontará para diferentes lados. Um deles foi a tomada de consciência quanto à necessidade de buscar uma identidade mais local, que resultou – no caso de bandas como os Paralamas do Sucesso (e outras ainda no underground como Picassos Falsos e Fellini) e do trabalho solo de Cazuza – em uma aproximação a ritmos e referências poéticas brasileiras, assim como em uma abordagem mais crítica sobre a realidade social do país.
 
 
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Outro aspecto dessa autocrítica foram canções (lançadas nesse e em anos próximos) que refletem criticamente sobre o artificialismo e as contradições da própria cena roqueira, assim como sobre o embate entre artista e indústria vide músicas como “O Rock Errou” (Lobão e Vilhena), “Rock Europeu” (Fellini), “Diversão” (Titãs), “Grana, fama e você” (Plebe Rude), “Muita Estrela pra pouca constelação”(Camisa de Vênus e Raul), “Terra de Gigantes” (Engenheiros), “Uniformes” (Kid Abelha). Em certo sentido, parece que o apogeu era também o prenúncio da crise em que o rock brasileiro oitentista mergulharia na segunda metade da década. Como diria uma música de Gessinger já no ano seguinte: “ascensão e queda/são dois lados da mesma moeda”. Coincidência ou não,outro ponto a ser colocado sobre a relevância do período, é o fato de que, ao longo do ano de 2016, várias canções daquela safra pareceram cair como uma luva para expressar os sentimentos de perplexidade e indignação diante do cenário atual de crise política. Versos que hoje, com certeza não entrariam na programação das rádios e das televisões, não por nenhuma censura estatal, como ainda existia no período, mas porque a censura mercadológica se revelou muito mais emburrecedora e castradora. Que venha 2017…
 
 
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